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Questão 3 10191322
CMBH 1° ano prova de Língua portuguesa 2013TEXTO I
ADOLESCÊNCIA
Já era outono e nós tínhamos o espírito suave da primavera. Aos 15, 16 anos, podíamos ser o que
a nossa imaginação alcançasse. A realidade era intangível e desnecessária. Era uma imposição contra a
qual nos rebelávamos. Era uma interdição ao nosso sonho. Mais do que uma interdição, era o fim do
nosso sonho. Na realidade, não há grandes paixões, não somos gênios, não somos heróis, nem mártires,
[5] nem santos. Na realidade, somos reduzidos a adolescentes espinhentos, a quem ninguém dá ouvidos. A
realidade é o princípio da morte.
Nós, adolescentes, morríamos a todo momento, sufocados pela realidade. E éramos sepultados
no chão duro da realidade. Mas tínhamos mais vidas que o gato. Sete vezes sete vidas. E logo
ressuscitávamos, fugíamos das grades da realidade, rasgávamos a camisa-de-força da realidade, e
[10] mergulhávamos outra vez no sonho. E com as nossas sete vezes sete vidas, nos tornávamos James
Dean, Pelé, Napoleão, Beethoven, Jesus Cristo, Dostoievski, e tantos outros, que surgiam e se
apagavam tão depressa que não deixavam nenhuma luz no mundo.
E fui tantos e quantos que perdi a conta. Qualquer romance eu era dois, três. Qualquer filme,
mais dois ou três. Em qualquer festa, eu era um ou dois. Fui tantos! E fui me construindo com esses
[15] cacos que a minha adolescência juntava, com esses retalhos de alma, dessa poeira que se acumula com
o tempo. E fui me fazendo com o que sobrava dos outros, com o que, sem consciência, roubava dos
outros. Não é que eu viva no passado, é o passado que está em mim.
Mesmo sendo fruto desta colagem, ela foi se misturando de uma maneira singular. Havia mais
resignação no lado direito, mais revolta no esquerdo, mais firmeza no caráter, mais incertezas quanto
[20] ao certo. Mais convicção quanto à arte, menos quanto ao amor. Que alegria se eu conseguisse ser eu!
Certamente, seria outro, outra síntese de outros. E mesmo entre nós, adolescentes, uns eram
ídolos de outros. Por pouco tempo, é verdade. Mas em rodízio. Algum, capaz de um ato de coragem,
atraía os olhares de admiração dos mais medrosos. O que arranjava namorada era invejado, copiava-se
até seu penteado. Andava-se com pente no bolso de trás e, no bolsinho de moedas, espelhinho oval,
[25] com foto de mulher nua, ou escudo do time preferido. Servia para pentear cabelo, espremer cravo e pôr
sobre o sapato enquanto as meninas passavam de saia – embora nunca tenha visto esse uso. Eu não me
encontrava em lugar algum. Parecia o fantasma de um cão adestrado. Ia para um lado e outro, sempre
seguindo a decisão de alguém, na solidão dos que vão atrás.
As garotas não sabem o que é adolescência. Elas saltam de uma etapa para outra, sem ninguém
[30] perceber. De repente, pronto: eis a mulher! Nariz empinado, muda a maneira de vestir e de conversar.
E isso inclui ignorar até os irmãos. Quando se é um adolescente, nenhuma garota tem a sua idade. Ou
melhor, ninguém tem a sua idade. Você é a única criatura no mundo que ninguém entende, ninguém
respeita, em que ninguém confia, à qual ninguém dá dinheiro e, à primeira coisa errada que aconteça,
você é o suspeito de ser o autor.
[35] Que fase maravilhosa, a adolescência! Você próprio está se construindo. Um ser em obras, com
andaimes, latas de tinta, pincéis. Tudo é um vir-a-ser. Vida, profissão, amor, família, tudo é futuro. Por
isso, pode voar em sonhos e mergulhar em delírios. Em sonhos e delírios, você é o que quiser. Se
ninguém o entende e reclama de você, fica na sua. Mas bem na sua mesmo. Esconda-se naquele lugar
onde ninguém vai achá-lo, nem mesmo você sabe onde é direito. Vai para lá no automático. E fica em
[40] silêncio consigo mesmo. Afinal, nem você mesmo se entende. Mas os que se queixam de você também
não se entendem entre si.
Sempre se diz que a adolescência é a fase mais difícil, porque se deixa de ser uma coisa e ainda
não se é outra. Não se deu assim comigo. Se me fosse dado voltar no tempo, eu voltaria para a
adolescência. Foi o período mais alegre da minha vida. Eu tinha tão pouco e precisava de tão menos,
[45] que do nada havia sobra. Era a aventura e a alegria, a curiosidade e as descobertas, a gratuidade de uma
vida que ainda não era. Vivi mais perto de mim, com mais paz, e mais perto de ser feliz. Para quem
não tem nada, menos que pouco pode ser o bastante. Ou até demais.
(ARAÚJO Alcione. Urgente é a Vida. 1.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. p.47)
“Quando se é um adolescente, nenhuma garota tem a sua idade”.
Nesse fragmento, de acordo com o contexto, pode-se inferir que o autor:
Questão 2 10143393
CMB 1º Ano - Língua Portuguesa 2013TEXTO
Uma questão de honra
Todas as manhãs, os aposentados Quintério Luca e Esmerado Fabião jogavam
às damas no bar da vila. Ocupavam sempre a mesma mesa, junto à vitrina. As pessoas
passavam e, invariavelmente, encontravam os velhos debruçados sobre o tabuleiro.
Pareciam estátuas guardando o tempo.
[5] [...]
Hora de fechar, Fabião e Quintério se retiravam deitando uma derradeira olhada
sobre o tabuleiro. As peças ficavam em posição estudada e acertada. Dia seguinte,
regressavam e retomavam a partida. Conversavam mais que jogavam. Maldiziam o
mundo, esse mundo em que já nem a terra é natural. Apenas o bar sobrevivia à
[10] deterioração geral. O tempo é um fruto: na medida, amadurece; em demasia, apodrece.
À volta do tabuleiro os dois tinham construído uma ilha, um castelo sem areia
onde ainda valiam a palavra, a honra e a amizade. Eles os cavalheiros e, no tabuleiro, as
damas.
Quanto mais envelheciam, mais os jogos demoravam. O último decorria havia
[15] semanas. Enquanto um jogava, o outro passava pelo sono. O aconchego do pequeno
bar era o melhor lugar para dormirem. Para eles, o bar era o lar, já que ali estavam longe
da abandonada solidão de seus quartos. E cada um deles era, para o outro, a
humanidade inteira.
Até que, um dia, sucedeu o conflito. Nessa manhã, incidentou-se o seguinte: as
[20] peças haviam mudado de posição. As jogadas se desenhavam agora em desfavor de
Quintério Luca. O velho entesou a voz, em aplicação de zanga:
– Fabião, você veio aqui essa noite?
– Minha honra! - negou Esmerado Fabião.
– O jogo não estava assim, nem tão pouco.
[25] – Mas eu acabei de entrar agora. Entramos juntos, não entramos?
– Então, quem mexeu no tabuleiro? Já viu: o meu jogo encontra-se todo
comestível...
– Com isso eu que não tenho a ver, Quintério.
Mais grave não podia ser. Decidiram consultar o doutor juiz. Encontraram-no na
[30] barbearia do Covane. Altivo, preparado para o corte do cabelo. [...] Permaneceu imóvel e
distante enquanto escutou o relato dos reformados.
– Diga-nos, senhor doutor: pode um jogo mexer-se sozinho à noite?
– Depende - respondeu o juiz.
Passou a mão suada pelo couro descabeludo. E acrescentou, enquanto se
[35] olhava ao espelho:
– São fenômenos.
Os velhos, boquiabertos, sem expressão. Nunca haviam escutado palavra com
tais sílabas. Mas bastava que o juiz a pronunciasse para que ela fosse considerada
verdade.
[40] – É isso que se chamam fenômenos paranormais. Nunca ouviram falar?
– É que, faz anos, estamos aqui na vila, sem sair para nenhum lado.
– Psicocinese, tropismos sem casualidade determinada. Entendem?
Mentiram acenando com as cabeças. Fez-se pausa, espessou-se o silêncio. Os
velhos alinhados, mãos cruzadas em respeito ante a curva do ventre. Mas não havia
[45] mais a ser dito. O juiz, entre vênias e licenças, se retirou. Passando pelos mortais com
seu ar divino, o juiz se resumia numa palavra: fenomenal.
Retiraram-se também os velhos, ombros estreitos, passos miúdos. Na rua,
Esmerado Fabião sublinhou sua inocência:
– Eu não disse que não tinha mexido em nada?
[50] E separaram-se, cada um conforme sua solidão.
Quintério Luca deitou-se no seu quarto, calado, mal digerido. Para ele, aquilo
não tinha volta mesmo. Já não lhe apetecia voltar ao bar, não lhe apetecia viver. Em sua
consciência não havia reverso: confiança manchada, amizade desmanchada.
Noite alta, Quintério saiu de casa, cruzando a vila como a coruja furtiva. Bateu
[55] na porta da residência do juiz. O magistrado, estremunhado, de roupão, entreabriu-lhe
os olhos inquisitivos.
– Desculpe, excelência, mas é que uma pergunta ficou-me encravada e quase
nem consigo respirar.
– Fale, homem.
[60] – É que não entendi bem. Afinal, o compadre Quintério aldrabou ou não?
– A ética, meu caro Quintério Luca, a ética é profundamente irrelevante, num
caso destes. E agora, vá com Deus. Deixe dormir os homens de bem.
Quintério Luca, voz educada, voltou a insistir. O doutor lhe perdoasse, mas não
o mandasse embora assim, na ética de Deus. Era pobre, não tinha palavra dispendiosa.
[65] Mas ele não podia ficar torturado por aquela dúvida. Que aquilo não era um
simples caso de batota ao jogo. Fabião estava a embatotar a vida. Porque, afinal, nunca
tinha sido às damas que eles jogavam. O que faziam, repartidamente, era distraírem a
espera do fim. E o compadre Fabião era a quem confiava sua única e última riqueza:
gordas lembranças, magras confidências.
[70] Foi então que o juiz se alertou, num arrepio. Não foi mais que um simples
rebrilho no escuro: o que Luca trazia por baixo do braço era uma antiga, mas autêntica
espingarda. O juiz aconchegou o roupão como se invadido pelo repentino de um frio.
O velho ainda demorou a perguntar:
– Se eu matar Esmerado Fabião, terei desculpa de sua excelência?
[75] – Não. Terei que o culpar.
– Então, com a devida desculpa, acho que tenho que matar primeiro o senhor
doutor juiz.
E disparou sobre o aterrorizado magistrado. Mas sem ponto na mira. A bala
sulcou os céus, sem rumo. O guarda-costas do juiz, aparecido das traseiras da casa,
[80] devolveu disparo. O velho Quintério Luca tombou vegetalmente, já sem suspiro.
Desde então, quem passa no bar da vila pode ver Esmerado Fabião sentado na
mesma mesa, contemplando a cadeira vaga na sua frente. No intervalo dos cabeceios,
ele vai repetindo meio desvairado:
– É a sua vez, compadre! É a sua vez de pedir.
COUTO, Mia. O fio das missangas: contos. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2009. (com adaptações)
VOCABULÁRIO
BATOTA: fraude em jogo, trapaça, falcatrua, mentira, roubo.
ALDRABOU: enganou, mentiu em excesso.
CABECEIOS: cochilos.
MISSANGAS: variação etimológica do vocábulo miçanga (coisa de pouco ou nenhum valor, bugiganga).
O fato gerador do conflito foi
Questão 4 10124611
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2013A violência tomou conta da vida contemporânea. Ela está nos filmes, nas novelas, nos jogos eletrônicos, nas ruas, nos lares e, diariamente, nos noticiários. Mas para afirmar que ainda é possível viver num mundo melhor, esta prova trata de um tema eterno e universal: o amor, antídoto para a violência.
TEXTO – Soneto de Fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
(Vinicius de Moraes. Antologia poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.)
No segundo quarteto do soneto de Vinicius de Moraes, verifica-se que existe uma oposição de ideias entre
Questão 3 10124608
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2013A violência tomou conta da vida contemporânea. Ela está nos filmes, nas novelas, nos jogos eletrônicos, nas ruas, nos lares e, diariamente, nos noticiários. Mas para afirmar que ainda é possível viver num mundo melhor, esta prova trata de um tema eterno e universal: o amor, antídoto para a violência.
TEXTO – Soneto de Fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
(Vinicius de Moraes. Antologia poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.)
Na última estrofe do Soneto de fidelidade, a palavra chama associa o amor à ideia de algo
Questão 9675607
EEAR EEAR 2013 1 FaseU GeraisCFS 2013Televisão e violência
Nos dias de hoje, a formação da mentalidade e da opinião pública é largamente dependente dos veículos de comunicação em massa, que selecionam o que devo ver, ouvir e ler. Eles não apenas informam mas, na grande maioria das vezes, interpretam o que transmitem, de maneira a bloquear em mim a possibilidade de exercer meu próprio senso crítico para interpretar o que foi divulgado.
Dentre esses meios de comunicação, ganha especial realce a televisão, que cria intimidades; a fascinação que exerce sobre a população e seu domínio sobre nossas vontades parecem estar no fato mágico de diluir realidades e fantasias, amalgamando-as num consumismo puramente passivo, de imagens e ideias.
A televisão nossa de cada dia está cheia de violências políticas que interiorizamos passivamente. Criando ilusões de novos estilos de vida, ela impõe valores, transforma as fantasias em razões de vida.
Afinal, quem, no dia a dia, vende a calça que uso, a pasta de dente que utilizo, o apartamento em que moro, acaba, naturalmente, por dizer-me também o que devo pensar, o que devo fazer, como devo agir em tais ou tais situações, numa palavra, determinando meu comportamento não apenas como consumidor mas sobretudo como cidadão.
(Nilo Odália, O que é violência, ed. Brasiliense – texto adaptado)
Vocabulário
: misturar num só bloco, de modo que não se percebam os elementos que o compõem.
Considerando que o autor apresenta a televisão como um meio de comunicação de massa que se destaca pela sua capacidade de manipulação e sedução, observe os trechos abaixo retirados do texto:
...a fascinação que exerce sobre a população e seu domínio sobre nossas vontades parecem estar no fato mágico de diluir realidades e fantasias... (ref. 1)
Criando ilusões de novos estilos de vida ... (ref. 2)
...ela impõe valores, transforma as fantasias em razões de vida. (ref. 3)
Há justificativa para o poder de sedução da televisão em
Questão 9675606
EEAR EEAR 2013 1 FaseU GeraisCFS 2013Televisão e violência
Nos dias de hoje, a formação da mentalidade e da opinião pública é largamente dependente dos veículos de comunicação em massa, que selecionam o que devo ver, ouvir e ler. Eles não apenas informam mas, na grande maioria das vezes, interpretam o que transmitem, de maneira a bloquear em mim a possibilidade de exercer meu próprio senso crítico para interpretar o que foi divulgado.
Dentre esses meios de comunicação, ganha especial realce a televisão, que cria intimidades; a fascinação que exerce sobre a população e seu domínio sobre nossas vontades parecem estar no fato mágico de diluir realidades e fantasias, amalgamando-as num consumismo puramente passivo, de imagens e ideias.
A televisão nossa de cada dia está cheia de violências políticas que interiorizamos passivamente. Criando ilusões de novos estilos de vida, ela impõe valores, transforma as fantasias em razões de vida.
Afinal, quem, no dia a dia, vende a calça que uso, a pasta de dente que utilizo, o apartamento em que moro, acaba, naturalmente, por dizer-me também o que devo pensar, o que devo fazer, como devo agir em tais ou tais situações, numa palavra, determinando meu comportamento não apenas como consumidor mas sobretudo como cidadão.
(Nilo Odália, O que é violência, ed. Brasiliense – texto adaptado)
Vocabulário
: misturar num só bloco, de modo que não se percebam os elementos que o compõem.
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