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Questão 2 15408326
CAp-UERJ 8 ano 2023CONTO DE VERÃO: BANDEIRA BRANCA*
Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só
quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro.
Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das
mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem
[5] arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora
apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães
reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns
tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
[10] Só no terceiro Carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O quê?!
[15] - Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval
e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no
[20] Carnaval, a tia é que era sócia.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete,
e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do
vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou
pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou
[25] na face, disse "Até o Carnaval que vem" e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram.
Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam
olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
[30] - O quê?
- Qualquer coisa.
- O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
***
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano
[35] desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro
pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo. E ela não apareceu.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma
moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
* "Bandeira branca" é uma música tradicional dos bailes de carnaval. A canção fala sobre saudade e reencontro.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
[40] Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano
anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
[45] A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com
um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao
grupo, alguém disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu
uma desculpa e afastou-se. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida,
começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Mas, quando a banda
[50] começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém
o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o
com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "não vale, você cresceu mais do que eu" e
encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela
[55] desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos
no Rio. Ela disse "quase não reconheci você sem fantasias". Ele custou a reconhecê-la. A última coisa
que ele lhe dissera fora "preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem, no Carnaval
que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai
tinha sido transferido para outro estado, e como ela não tinha o endereço dele e, mesmo, não teria
[60] onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Ele pensando: digo ou não digo
que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e
[65] que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo
o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e
que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO Adaptado de MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
Ele: tirolês. Ela: odalisca. (l. 1)
Os termos sublinhados são compreendidos em seu sentido conotativo, devido ao contexto em que se encontram os personagens.
Duas palavras do 1° parágrafo que se referem a esse contexto são:
Questão 1 15408323
CAp-UERJ 8 ano 2023CONTO DE VERÃO: BANDEIRA BRANCA*
Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só
quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro.
Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das
mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem
[5] arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora
apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães
reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns
tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
[10] Só no terceiro Carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O quê?!
[15] - Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval
e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no
[20] Carnaval, a tia é que era sócia.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete,
e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do
vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou
pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou
[25] na face, disse "Até o Carnaval que vem" e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram.
Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam
olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
[30] - O quê?
- Qualquer coisa.
- O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
***
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano
[35] desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro
pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo. E ela não apareceu.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma
moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
* "Bandeira branca" é uma música tradicional dos bailes de carnaval. A canção fala sobre saudade e reencontro.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
[40] Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano
anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
[45] A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com
um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao
grupo, alguém disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu
uma desculpa e afastou-se. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida,
começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Mas, quando a banda
[50] começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém
o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o
com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "não vale, você cresceu mais do que eu" e
encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela
[55] desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos
no Rio. Ela disse "quase não reconheci você sem fantasias". Ele custou a reconhecê-la. A última coisa
que ele lhe dissera fora "preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem, no Carnaval
que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai
tinha sido transferido para outro estado, e como ela não tinha o endereço dele e, mesmo, não teria
[60] onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Ele pensando: digo ou não digo
que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e
[65] que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo
o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e
que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO Adaptado de MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
O conto narra as mudanças dos personagens desde a infância até meados da adolescência, fazendo um salto no desfecho para a vida adulta.
Um dos personagens reflete sobre o próprio processo de amadurecimento no seguinte trecho:
Questão 10 15407220
Colégio Pedro II 2023Texto

SOUSA, M. Disponível em: https://brainly.com.br. Acesso em: 6 out 2022
Chico Bento, conhecido personagem do universo da Turma da Mônica, é uma criança que vive em zona rural.
Atua como elemento de reforço dessa identidade camponesa do personagem a
Questão 9 15407219
Colégio Pedro II 2023Texto
QUEM COLA SAI DA ESCOLA?
[1] A “cola” na escola é a prática de furtar ideias e respostas alheias nas situações de
avaliação. Trata-se de um fenômeno tão recorrente que gera a palavra de ordem dos
corredores: “quem não cola não sai da escola”.
A recorrência do fenômeno sugere que a prática da cola seria ou um problema menor,
[5] ou um problema insolúvel. Aqueles que a veem como problema menor defendem que muitas
vezes a cola pode até estimular a [5] criatividade dos alunos, tantos são os meios inventados
para burlar a vigilância de professores e inspetores. Aqueles que a veem como problema
insolúvel defendem que a essência do ser humano é ruim, logo, se faz necessário aumentar
o controle para que os alunos, pelo menos, colem menos.
[10] De fato, trata-se de um problema. Defendo, no entanto, esse problema não é nem
menor, nem insolúvel.
Por que a cola não é um problema menor? Porque através da sua prática o futuro
cidadão “aprende” a desonestidade intelectual, exatamente a matriz de todo tipo de
corrupção que assola o país. Através da prática da cola o futuro cidadão aprende a subornar,
[15] a aceitar suborno e a avançar o sinal vermelho. Minimizar a importância da cola implica
minimizar suas graves consequências para toda a sociedade.
Por que a cola não é um problema insolúvel? Porque ela é fabricada pela própria
escola, que dela precisa para estruturar e justificar seu complexo sistema de controle e
poder. Na verdade, a cola é a sombra da própria escola. Se percebermos como isso
[20] acontece, podemos mudar as práticas escolares que instituem e promovem a cola.
Na escola são tantas as disciplinas que o conhecimento fica todo esfacelado. Nenhum
professor pode dar conta de toda a matéria que se ensina aos alunos em todas as disciplinas,
mas todos os professores exigem que seus alunos deem conta do que eles mesmos não
conseguem. […]
[25] O aluno, pressionado por tanto exame de tanta matéria, e ao mesmo tempo
percebendo que seus professores não sabem tudo o que eles teriam de saber, tenta escapar
pela cola. A escola então se vê obrigada a criar mecanismos de repressão à cola.
No entanto, como quem passou pela escola sabe bem, esses mecanismos são em
geral ineficientes. Um número muito pequeno de alunos é “pego” colando, o suficiente
[30] apenas para manter a impressão de repressão. Punem-se somente aqueles que colam muito
mal. Isso significa que professores e inspetores são bobos?
Não. Na verdade, o controle deficiente da cola revela-se um procedimento eficiente de
promovê-la. Promove-se assim a desonestidade e, ao mesmo tempo, a dependência
intelectual. Quando consegue colar, o aluno comemora sua vitória sobre o professor, sem
[35] perceber que introjeta tanto a desonestidade quanto a insegurança. Sua vitória é uma
derrota. Quem cola, na verdade, não sai da escola, porque fica preso dentro do seu sistema
viciado e viciante.
[…] Não acho que a cola torne ninguém mais esperto. A prática da cola fabrica antes
pessoas simultaneamente desonestas e inseguras. Logo, sou contra a cola. Mas também
[40] sou contra a repressão à cola, porque ela na verdade estimula essa prática. O que fazer?
Como sempre, a solução encontra na raiz do problema. Essa raiz deve ser arrancada.
Para fazê-lo, devemos modificar as condições escolares que criam e promovem a cola.
BERNARDO, G Disponível em: https://revista.vestibular.uerj.br. Acesso em: 6 out. 2022 (adaptado)
Texto II
VALORES
[1] Eu começo este cordel
perguntando agoniado:
porque os nossos valores
são tão desvalorizados?
[5] Quanto vale a honestidade?
Qual o preço da bondade?
Quanto custa ser do bem?
Vivemos a decadência
de um povo que, em sua essência,
[10] só faz o que lhe convém...
Será mesmo tão difícil
pra gente compreender
que quando se ajuda alguém
o ajudado é você?
[15] Será mesmo que enganar
é melhor que ajudar?
Será que não tem mais jeito
de aprender essa lição
consertando o coração
[20] que bate no nosso peito?
[...]
Trabalhar, vencer na vida
é uma estrada comprida...
E ser rico não é feio.
Foi mesmo é esquecer
[25] do que Deus deu pra você
pra desejar o alheio.
Tudo aquilo que vem fácil
facilmente se desfaz,
o vento que às vezes leva
[30] é o mesmo vento que traz.
Seja justo, paciente,
seja um cidadão decente,
pois é na dificuldade
que a gente aprende a viver
[35] e assim pode saber
o valor real da verdade.
BESSA, B Disponível em: https://www.tudoepoema.com.br. Acesso em: 6 out. 2022
Texto III

SOUSA, M. Disponível em: https://brainly.com.br. Acesso em: 6 out, 2022
Os três textos desta prova apresentam abordagens distintas para um tema semelhante.
A frase, retirada do Texto I, que melhor representa essa temática presente nos três textos é:
Questão 8 15407218
Colégio Pedro II 2023Texto
VALORES
[1] Eu começo este cordel
perguntando agoniado:
porque os nossos valores
são tão desvalorizados?
[5] Quanto vale a honestidade?
Qual o preço da bondade?
Quanto custa ser do bem?
Vivemos a decadência
de um povo que, em sua essência,
[10] só faz o que lhe convém...
Será mesmo tão difícil
pra gente compreender
que quando se ajuda alguém
o ajudado é você?
[15] Será mesmo que enganar
é melhor que ajudar?
Será que não tem mais jeito
de aprender essa lição
consertando o coração
[20] que bate no nosso peito?
[...]
Trabalhar, vencer na vida
é uma estrada comprida...
E ser rico não é feio.
Foi mesmo é esquecer
[25] do que Deus deu pra você
pra desejar o alheio.
Tudo aquilo que vem fácil
facilmente se desfaz,
o vento que às vezes leva
[30] é o mesmo vento que traz.
Seja justo, paciente,
seja um cidadão decente,
pois é na dificuldade
que a gente aprende a viver
[35] e assim pode saber
o valor real da verdade.
BESSA, B Disponível em: https://www.tudoepoema.com.br. Acesso em: 6 out. 2022
“Seja justo, paciente, / seja um cidadão decente, / pois é na dificuldade / que a gente aprende a viver / e assim pode saber / quem é do bem de verdade.” (Texto, versos 31-36)
Estes são os últimos versos do Texto, isto é, a conclusão do poema.
Neles, o poeta Bráulio Bessa tem como principal intencionalidade
Questão 7 15407217
Colégio Pedro II 2023Texto
QUEM COLA SAI DA ESCOLA?
[1] A “cola” na escola é a prática de furtar ideias e respostas alheias nas situações de
avaliação. Trata-se de um fenômeno tão recorrente que gera a palavra de ordem dos
corredores: “quem não cola não sai da escola”.
A recorrência do fenômeno sugere que a prática da cola seria ou um problema menor,
[5] ou um problema insolúvel. Aqueles que a veem como problema menor defendem que muitas
vezes a cola pode até estimular a [5] criatividade dos alunos, tantos são os meios inventados
para burlar a vigilância de professores e inspetores. Aqueles que a veem como problema
insolúvel defendem que a essência do ser humano é ruim, logo, se faz necessário aumentar
o controle para que os alunos, pelo menos, colem menos.
[10] De fato, trata-se de um problema. Defendo, no entanto, esse problema não é nem
menor, nem insolúvel.
Por que a cola não é um problema menor? Porque através da sua prática o futuro
cidadão “aprende” a desonestidade intelectual, exatamente a matriz de todo tipo de
corrupção que assola o país. Através da prática da cola o futuro cidadão aprende a subornar,
[15] a aceitar suborno e a avançar o sinal vermelho. Minimizar a importância da cola implica
minimizar suas graves consequências para toda a sociedade.
Por que a cola não é um problema insolúvel? Porque ela é fabricada pela própria
escola, que dela precisa para estruturar e justificar seu complexo sistema de controle e
poder. Na verdade, a cola é a sombra da própria escola. Se percebermos como isso
[20] acontece, podemos mudar as práticas escolares que instituem e promovem a cola.
Na escola são tantas as disciplinas que o conhecimento fica todo esfacelado. Nenhum
professor pode dar conta de toda a matéria que se ensina aos alunos em todas as disciplinas,
mas todos os professores exigem que seus alunos deem conta do que eles mesmos não
conseguem. […]
[25] O aluno, pressionado por tanto exame de tanta matéria, e ao mesmo tempo
percebendo que seus professores não sabem tudo o que eles teriam de saber, tenta escapar
pela cola. A escola então se vê obrigada a criar mecanismos de repressão à cola.
No entanto, como quem passou pela escola sabe bem, esses mecanismos são em
geral ineficientes. Um número muito pequeno de alunos é “pego” colando, o suficiente
[30] apenas para manter a impressão de repressão. Punem-se somente aqueles que colam muito
mal. Isso significa que professores e inspetores são bobos?
Não. Na verdade, o controle deficiente da cola revela-se um procedimento eficiente de
promovê-la. Promove-se assim a desonestidade e, ao mesmo tempo, a dependência
intelectual. Quando consegue colar, o aluno comemora sua vitória sobre o professor, sem
[35] perceber que introjeta tanto a desonestidade quanto a insegurança. Sua vitória é uma
derrota. Quem cola, na verdade, não sai da escola, porque fica preso dentro do seu sistema
viciado e viciante.
[…] Não acho que a cola torne ninguém mais esperto. A prática da cola fabrica antes
pessoas simultaneamente desonestas e inseguras. Logo, sou contra a cola. Mas também
[40] sou contra a repressão à cola, porque ela na verdade estimula essa prática. O que fazer?
Como sempre, a solução encontra na raiz do problema. Essa raiz deve ser arrancada.
Para fazê-lo, devemos modificar as condições escolares que criam e promovem a cola.
BERNARDO, G Disponível em: https://revista.vestibular.uerj.br. Acesso em: 6 out. 2022 (adaptado)
Texto
VALORES
[1] Eu começo este cordel
perguntando agoniado:
porque os nossos valores
são tão desvalorizados?
[5] Quanto vale a honestidade?
Qual o preço da bondade?
Quanto custa ser do bem?
Vivemos a decadência
de um povo que, em sua essência,
[10] só faz o que lhe convém...
Será mesmo tão difícil
pra gente compreender
que quando se ajuda alguém
o ajudado é você?
[15] Será mesmo que enganar
é melhor que ajudar?
Será que não tem mais jeito
de aprender essa lição
consertando o coração
[20] que bate no nosso peito?
[...]
Trabalhar, vencer na vida
é uma estrada comprida...
E ser rico não é feio.
Foi mesmo é esquecer
[25] do que Deus deu pra você
pra desejar o alheio.
Tudo aquilo que vem fácil
facilmente se desfaz,
o vento que às vezes leva
[30] é o mesmo vento que traz.
Seja justo, paciente,
seja um cidadão decente,
pois é na dificuldade
que a gente aprende a viver
[35] e assim pode saber
o valor real da verdade.
BESSA, B Disponível em: https://www.tudoepoema.com.br. Acesso em: 6 out. 2022
“Isso significa que professores e inspetores são bobos?” (Texto I, linha 31)
“Quanto vale a honestidade?” (Texto II, verso 5)
Observamos que tanto o Texto I quanto o Texto II empregam perguntas como forma de estruturação do seu raciocínio, conforme as frases acima exemplificam.
Quanto a esse recurso, é correto afirmar que
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