Questões de EFAF Português
15.488 Questões
Questão 9 15408339
CAp-UERJ 8 ano 2023CONTO DE VERÃO: BANDEIRA BRANCA*
Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só
quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro.
Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das
mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem
[5] arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora
apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães
reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns
tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
[10] Só no terceiro Carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O quê?!
[15] - Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval
e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no
[20] Carnaval, a tia é que era sócia.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete,
e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do
vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou
pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou
[25] na face, disse "Até o Carnaval que vem" e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram.
Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam
olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
[30] - O quê?
- Qualquer coisa.
- O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
***
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano
[35] desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro
pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo. E ela não apareceu.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma
moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
* "Bandeira branca" é uma música tradicional dos bailes de carnaval. A canção fala sobre saudade e reencontro.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
[40] Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano
anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
[45] A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com
um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao
grupo, alguém disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu
uma desculpa e afastou-se. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida,
começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Mas, quando a banda
[50] começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém
o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o
com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "não vale, você cresceu mais do que eu" e
encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela
[55] desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos
no Rio. Ela disse "quase não reconheci você sem fantasias". Ele custou a reconhecê-la. A última coisa
que ele lhe dissera fora "preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem, no Carnaval
que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai
tinha sido transferido para outro estado, e como ela não tinha o endereço dele e, mesmo, não teria
[60] onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Ele pensando: digo ou não digo
que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e
[65] que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo
o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e
que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO Adaptado de MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
Considere que, em um baile infantil, havia 5 crianças para cada 2 adultos.
Utilizando essa razão e, sabendo que compareceram nesse baile exatamente 54 adultos, o número total de crianças era de:
Questão 7 15408332
CAp-UERJ 8 ano 2023CONTO DE VERÃO: BANDEIRA BRANCA*
Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só
quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro.
Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das
mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem
[5] arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora
apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães
reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns
tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
[10] Só no terceiro Carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O quê?!
[15] - Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval
e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no
[20] Carnaval, a tia é que era sócia.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete,
e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do
vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou
pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou
[25] na face, disse "Até o Carnaval que vem" e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram.
Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam
olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
[30] - O quê?
- Qualquer coisa.
- O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
***
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano
[35] desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro
pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo. E ela não apareceu.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma
moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
* "Bandeira branca" é uma música tradicional dos bailes de carnaval. A canção fala sobre saudade e reencontro.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
[40] Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano
anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
[45] A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com
um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao
grupo, alguém disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu
uma desculpa e afastou-se. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida,
começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Mas, quando a banda
[50] começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém
o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o
com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "não vale, você cresceu mais do que eu" e
encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela
[55] desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos
no Rio. Ela disse "quase não reconheci você sem fantasias". Ele custou a reconhecê-la. A última coisa
que ele lhe dissera fora "preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem, no Carnaval
que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai
tinha sido transferido para outro estado, e como ela não tinha o endereço dele e, mesmo, não teria
[60] onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Ele pensando: digo ou não digo
que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e
[65] que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo
o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e
que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO Adaptado de MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
De acordo com o conto, Janice e Píndaro se conheceram aos 4 anos, no primeiro baile de Carnaval. A reta abaixo representa os bailes frequentados pelos personagens anualmente.
![]()
Admitindo que ambos fazem aniversário em 1° de janeiro, a idade deles, no sétimo baile, em anos, era igual a:
Questão 6 15408330
CAp-UERJ 8 ano 2023CONTO DE VERÃO: BANDEIRA BRANCA*
Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só
quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro.
Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das
mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem
[5] arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora
apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães
reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns
tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
[10] Só no terceiro Carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O quê?!
[15] - Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval
e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no
[20] Carnaval, a tia é que era sócia.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete,
e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do
vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou
pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou
[25] na face, disse "Até o Carnaval que vem" e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram.
Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam
olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
[30] - O quê?
- Qualquer coisa.
- O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
***
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano
[35] desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro
pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo. E ela não apareceu.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma
moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
* "Bandeira branca" é uma música tradicional dos bailes de carnaval. A canção fala sobre saudade e reencontro.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
[40] Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano
anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
[45] A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com
um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao
grupo, alguém disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu
uma desculpa e afastou-se. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida,
começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Mas, quando a banda
[50] começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém
o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o
com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "não vale, você cresceu mais do que eu" e
encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela
[55] desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos
no Rio. Ela disse "quase não reconheci você sem fantasias". Ele custou a reconhecê-la. A última coisa
que ele lhe dissera fora "preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem, no Carnaval
que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai
tinha sido transferido para outro estado, e como ela não tinha o endereço dele e, mesmo, não teria
[60] onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Ele pensando: digo ou não digo
que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e
[65] que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo
o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e
que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO Adaptado de MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
A última coisa que ele lhe dissera fora "preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem, no Carnaval que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. (l. 56-58)
A palavra sublinhada pode ser substituída, sem alteração de sentido, por:
Questão 5 15408329
CAp-UERJ 8 ano 2023CONTO DE VERÃO: BANDEIRA BRANCA*
Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só
quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro.
Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das
mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem
[5] arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora
apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães
reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns
tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
[10] Só no terceiro Carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O quê?!
[15] - Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval
e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no
[20] Carnaval, a tia é que era sócia.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete,
e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do
vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou
pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou
[25] na face, disse "Até o Carnaval que vem" e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram.
Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam
olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
[30] - O quê?
- Qualquer coisa.
- O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
***
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano
[35] desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro
pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo. E ela não apareceu.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma
moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
* "Bandeira branca" é uma música tradicional dos bailes de carnaval. A canção fala sobre saudade e reencontro.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
[40] Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano
anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
[45] A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com
um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao
grupo, alguém disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu
uma desculpa e afastou-se. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida,
começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Mas, quando a banda
[50] começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém
o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o
com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "não vale, você cresceu mais do que eu" e
encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela
[55] desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos
no Rio. Ela disse "quase não reconheci você sem fantasias". Ele custou a reconhecê-la. A última coisa
que ele lhe dissera fora "preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem, no Carnaval
que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai
tinha sido transferido para outro estado, e como ela não tinha o endereço dele e, mesmo, não teria
[60] onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Ele pensando: digo ou não digo
que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e
[65] que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo
o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e
que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO Adaptado de MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. (l. 50-51)
Na frase sublinhada, o discurso do narrador observador está misturado ao pensamento de Píndaro.
Isso pode ser observado pela presença, nessa frase, do seguinte elemento:
Questão 4 15408328
CAp-UERJ 8 ano 2023CONTO DE VERÃO: BANDEIRA BRANCA*
Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só
quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro.
Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das
mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem
[5] arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora
apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães
reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns
tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
[10] Só no terceiro Carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O quê?!
[15] - Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval
e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no
[20] Carnaval, a tia é que era sócia.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete,
e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do
vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou
pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou
[25] na face, disse "Até o Carnaval que vem" e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram.
Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam
olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
[30] - O quê?
- Qualquer coisa.
- O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
***
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano
[35] desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro
pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo. E ela não apareceu.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma
moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
* "Bandeira branca" é uma música tradicional dos bailes de carnaval. A canção fala sobre saudade e reencontro.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
[40] Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano
anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
[45] A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com
um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao
grupo, alguém disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu
uma desculpa e afastou-se. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida,
começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Mas, quando a banda
[50] começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém
o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o
com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "não vale, você cresceu mais do que eu" e
encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela
[55] desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos
no Rio. Ela disse "quase não reconheci você sem fantasias". Ele custou a reconhecê-la. A última coisa
que ele lhe dissera fora "preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem, no Carnaval
que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai
tinha sido transferido para outro estado, e como ela não tinha o endereço dele e, mesmo, não teria
[60] onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Ele pensando: digo ou não digo
que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e
[65] que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo
o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e
que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO Adaptado de MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. (l. 34-35)
No trecho, a frase sublinhada mantém com a primeira relação de:
Questão 3 15408327
CAp-UERJ 8 ano 2023CONTO DE VERÃO: BANDEIRA BRANCA*
Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só
quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro.
Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das
mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem
[5] arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora
apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães
reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns
tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
[10] Só no terceiro Carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O quê?!
[15] - Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval
e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no
[20] Carnaval, a tia é que era sócia.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete,
e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do
vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou
pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou
[25] na face, disse "Até o Carnaval que vem" e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram.
Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam
olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
[30] - O quê?
- Qualquer coisa.
- O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
***
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano
[35] desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro
pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo. E ela não apareceu.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma
moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
* "Bandeira branca" é uma música tradicional dos bailes de carnaval. A canção fala sobre saudade e reencontro.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
[40] Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano
anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
[45] A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com
um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao
grupo, alguém disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu
uma desculpa e afastou-se. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida,
começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Mas, quando a banda
[50] começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém
o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o
com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "não vale, você cresceu mais do que eu" e
encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela
[55] desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos
no Rio. Ela disse "quase não reconheci você sem fantasias". Ele custou a reconhecê-la. A última coisa
que ele lhe dissera fora "preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem, no Carnaval
que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai
tinha sido transferido para outro estado, e como ela não tinha o endereço dele e, mesmo, não teria
[60] onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Ele pensando: digo ou não digo
que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e
[65] que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo
o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e
que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO Adaptado de MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. (l. 1-2)
No trecho acima, o verbo sublinhado é o único que se encontra no tempo presente.
Isso acontece porque a frase que contém esse verbo possui a função de:
06
![[Marketing] Questao Topo - deslogado](https://storage.estuda.com.br/banners/0_6b7ebee90b03af1c560c73bb8bcce34a_banner_deslogado_70_dias.png)