Questões de EFAF Português
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Questão 16 15408810
CAp-UERJ 9 ano 2023ÁFRICAS
As ruas que circundavam a praça Onze e a região portuária da cidade eram como uma África
fincada no coração de um Rio de Janeiro tensionado pelo sonho cosmopolita de suas elites. Essa ideia
é consagrada não só na imaginação popular, como também na literatura e história que têm como tema
a cidade. O apelido de “berço do samba”, tantas vezes usado para se referir à velha praça e aos seus
[5] arredores, é exemplar disso.
Apesar da indiscutível centralidade da praça Onze, o estudo mais sistemático sobre a cidade e o
samba mostra ser mais coerente falarmos de um Rio de Janeiro de “pequenas Áfricas”, no plural. A ideia
de uma África cravada no coração da cidade ganhou contornos quase mitológicos, fundamentados
em referências orais e escritas que atestam o destaque da região.
[10] Devemos lembrar, entretanto, que as reconfigurações urbanas da cidade foram expandindo o Rio
de Janeiro cada vez mais para a Zona Norte, para os subúrbios e para o alto dos morros. Comunidades
negras acabaram tendo papéis de absoluta relevância no processo de ocupação dessas regiões. Um
caso exemplar é o bairro de Oswaldo Cruz, bem perto de Madureira, como diz um samba bonito do
Monarco.
[15] Para se falar de Oswaldo Cruz, convém começar pela Freguesia de Irajá. Ela foi criada no século
XVII e, com o tempo, se transformou em uma das principais zonas de abastecimento da cidade do Rio
de Janeiro, produzindo frutas tropicais, cachaça, hortaliças e materiais de construção saídos de suas
olarias. O abastecimento da cidade era feito por um pequeno porto situado na foz do rio Irajá, de onde
as embarcações desciam até o rio Meriti e seguiam por outros pequenos canais que desaguavam na
[20] baía de Guanabara.
Com as reformas urbanas do início da República, aumentou a ocupação dos morros das regiões
mais próximas ao centro - especialmente no Estácio, na Tijuca, na Saúde e em Vila Isabel -, e também
de alguns loteamentos do subúrbio.
Do loteamento da Fazenda do Campinho, na região de Irajá, surgiram os bairros de Campinho
[25] e Madureira. Ambos assistiram a um aumento no número de moradores nas primeiras décadas do
século XX. Oswaldo Cruz surgiu a partir do loteamento de terras pertencentes ao português Miguel
Gonçalves Portela, que concentravam grande parte do rebanho bovino da cidade.
Os poucos relatos existentes sobre Oswaldo Cruz nessa época descrevem uma região rural, sem água
encanada, luz elétrica e calçamento. As ruas eram cortadas por valões que dificultavam a passagem
[30] dos habitantes, obrigados a se locomover a pé ou a cavalo. Quando chovia, era um deus nos acuda.
O comércio era feito entre vários currais e se resumia a alguns armazéns e bares. Vez por outra, bois
e vacas que adentravam os estabelecimentos tinham que ser expulsos pela turma que bebericava e
botava a conversa em dia.
LUIZ ANTONIO SIMAS Adaptado de O corpo encantado das ruas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023.
Quando chovia, era um deus nos acuda. (l. 30)
A expressão popular sublinhada é típica da oralidade e tem o sentido de:
Questão 15 15408809
CAp-UERJ 9 ano 2023ÁFRICAS
As ruas que circundavam a praça Onze e a região portuária da cidade eram como uma África
fincada no coração de um Rio de Janeiro tensionado pelo sonho cosmopolita de suas elites. Essa ideia
é consagrada não só na imaginação popular, como também na literatura e história que têm como tema
a cidade. O apelido de “berço do samba”, tantas vezes usado para se referir à velha praça e aos seus
[5] arredores, é exemplar disso.
Apesar da indiscutível centralidade da praça Onze, o estudo mais sistemático sobre a cidade e o
samba mostra ser mais coerente falarmos de um Rio de Janeiro de “pequenas Áfricas”, no plural. A ideia
de uma África cravada no coração da cidade ganhou contornos quase mitológicos, fundamentados
em referências orais e escritas que atestam o destaque da região.
[10] Devemos lembrar, entretanto, que as reconfigurações urbanas da cidade foram expandindo o Rio
de Janeiro cada vez mais para a Zona Norte, para os subúrbios e para o alto dos morros. Comunidades
negras acabaram tendo papéis de absoluta relevância no processo de ocupação dessas regiões. Um
caso exemplar é o bairro de Oswaldo Cruz, bem perto de Madureira, como diz um samba bonito do
Monarco.
[15] Para se falar de Oswaldo Cruz, convém começar pela Freguesia de Irajá. Ela foi criada no século
XVII e, com o tempo, se transformou em uma das principais zonas de abastecimento da cidade do Rio
de Janeiro, produzindo frutas tropicais, cachaça, hortaliças e materiais de construção saídos de suas
olarias. O abastecimento da cidade era feito por um pequeno porto situado na foz do rio Irajá, de onde
as embarcações desciam até o rio Meriti e seguiam por outros pequenos canais que desaguavam na
[20] baía de Guanabara.
Com as reformas urbanas do início da República, aumentou a ocupação dos morros das regiões
mais próximas ao centro - especialmente no Estácio, na Tijuca, na Saúde e em Vila Isabel -, e também
de alguns loteamentos do subúrbio.
Do loteamento da Fazenda do Campinho, na região de Irajá, surgiram os bairros de Campinho
[25] e Madureira. Ambos assistiram a um aumento no número de moradores nas primeiras décadas do
século XX. Oswaldo Cruz surgiu a partir do loteamento de terras pertencentes ao português Miguel
Gonçalves Portela, que concentravam grande parte do rebanho bovino da cidade.
Os poucos relatos existentes sobre Oswaldo Cruz nessa época descrevem uma região rural, sem água
encanada, luz elétrica e calçamento. As ruas eram cortadas por valões que dificultavam a passagem
[30] dos habitantes, obrigados a se locomover a pé ou a cavalo. Quando chovia, era um deus nos acuda.
O comércio era feito entre vários currais e se resumia a alguns armazéns e bares. Vez por outra, bois
e vacas que adentravam os estabelecimentos tinham que ser expulsos pela turma que bebericava e
botava a conversa em dia.
LUIZ ANTONIO SIMAS Adaptado de O corpo encantado das ruas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023.
O autor do texto, além de descrever aspectos da formação do Rio de Janeiro, faz comentários sobre esse tema.
Dentre os trechos abaixo, o que apresenta um comentário é:
Questão 10 15408797
CAp-UERJ 9 ano 2023AS PONTES DE LONDRES
Todas as vezes que penso em Londres revejo as suas pontes. Achei muito natural estar na Inglaterra,
mas agora quando penso que lá estive meu coração se enche de gratidão. Vi em Londres uma terra
estranha e viva, cinzenta - tudo o que é cinzento misteriosamente vibra para mim, como se fosse a
reunião de todas as cores amansadas.
[5] Estive em contato com a feiura dos ingleses, que é uma das coisas que mais me atraem na Inglaterra.
É uma feiura tão peculiar, tão bela - e isso não são meras palavras. Fazia muito frio, e o vento dava
ao rosto e às mãos aquela vermelhidão crua que torna cada pessoa extremamente real. As mulheres
fazem compras com as cestas, os homens da City usam chapéu-coco. E o Tâmisa é sujo, tem lama.
Já houve peste em Londres. Uma vez se incendiou a cidade inteira. A peste e o incêndio estavam
[10] presentes em minha estada em Londres.
As pessoas bebem café horrível, em xícara grande, mas o café fumega. Fumegante como toda a
ilha, cujas pontes enegrecidas surgem da quase constante névoa. O fog* se exala das pedras do chão
e envolve as pontes.
As pontes de Londres são muito emocionantes. Umas são sólidas e ameaçadoras. Outras são
[15] puro esqueleto. Quanto aos ingleses, não são tão inteligentes. Mas a Inglaterra é um dos países mais
inteligentes do mundo. Estávamos de carro. Entre uma cidade e outra, as cidadezinhas inglesas dão mil
voltas em torno de si, e a chuva fina cai nos vidros do carro. Nas ruas o povo usa roupas tão malfeitas
que terminaram se tornando em estilo belo. E agasalham mesmo. Vejo uma criança de capotão escuro
e meias grosseiras e capuz enterrado abaixo das orelhas, com o rosto vívido e magro, olhos espertos
[20] e cara vermelha - e aquela entonação pura das vozes inglesas, interrogativas e orgulhosas.
Só agora sei quanto amei o vento de Londres que me fazia os olhos lacrimejar de raiva e a pele
gritar de irritação.
E depois tem as estradas, o campo inglês que é diverso de qualquer outro campo. Lembro-me de
árvores tão altas.
[25] E depois há o desejo de viajar de todo inglês - e isso é um movimento inquieto e amplo.
No teatro em Londres uma coisa essencial se passa. É de tremer de frio e de emoção: o ator inglês
é o homem mais sério da Inglaterra. Em poucas horas ele dá a cada um aquilo importante que se perde
na vida diária. Quando se sai, é a chuva escura, a rua molhada, as velhas ruas inglesas onde de noite
há o desejo de perigo. Vai-se jantar. Uma comida péssima irrita, no restaurante de comida tipicamente
[30] inglesa. Mas pode-se ir para um restaurante de comida alegre, dos estrangeiros, em Londres mesmo.
Lembro-me que houve a Idade Média na Inglaterra, e isso está nas torres. A segurança de certos
ingleses chega às vezes a se tornar engraçada. Nas ruas andam depressa, é um povo lutador. E se o
mundo não fosse tão doloroso, seria bonito ver a luta pela sobrevivência.
E depois há a saudade de escritores mortos. Tenho muita saudade de Lawrence.
[35] A rainha é suave, os jornais têm um jeito provinciano, e quando os ingleses e inglesas são bonitos,
passam logo a ter uma extraordinária beleza. E a criança inglesa é sempre linda, e quando abre a boca
para falar, aí é que fica lindíssima.
Tudo isso se chama saudade: procuro recuperar Londres na memória, nessas notas. E assim fica
apenas anotado, com a maior rapidez, antes que o sentimento passe.
CLARICE LISPECTOR Todas as crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.
* Palavra inglesa que se refere a névoa.
Dois turistas, X e Y, encontram-se na Tower Bridge, a uma distância de 90 metros um do outro, como mostra a imagem.

Ambos os turistas decidem visitar a torre oposta no mesmo instante. X caminha 1,5 metro a cada segundo, enquanto Y caminha 1,0 metro a cada segundo.
A distância total percorrida, em metros, pelo turista X ao cruzar com Y, é igual a:
Questão 9 15408792
CAp-UERJ 9 ano 2023AS PONTES DE LONDRES
Todas as vezes que penso em Londres revejo as suas pontes. Achei muito natural estar na Inglaterra,
mas agora quando penso que lá estive meu coração se enche de gratidão. Vi em Londres uma terra
estranha e viva, cinzenta - tudo o que é cinzento misteriosamente vibra para mim, como se fosse a
reunião de todas as cores amansadas.
[5] Estive em contato com a feiura dos ingleses, que é uma das coisas que mais me atraem na Inglaterra.
É uma feiura tão peculiar, tão bela - e isso não são meras palavras. Fazia muito frio, e o vento dava
ao rosto e às mãos aquela vermelhidão crua que torna cada pessoa extremamente real. As mulheres
fazem compras com as cestas, os homens da City usam chapéu-coco. E o Tâmisa é sujo, tem lama.
Já houve peste em Londres. Uma vez se incendiou a cidade inteira. A peste e o incêndio estavam
[10] presentes em minha estada em Londres.
As pessoas bebem café horrível, em xícara grande, mas o café fumega. Fumegante como toda a
ilha, cujas pontes enegrecidas surgem da quase constante névoa. O fog* se exala das pedras do chão
e envolve as pontes.
As pontes de Londres são muito emocionantes. Umas são sólidas e ameaçadoras. Outras são
[15] puro esqueleto. Quanto aos ingleses, não são tão inteligentes. Mas a Inglaterra é um dos países mais
inteligentes do mundo. Estávamos de carro. Entre uma cidade e outra, as cidadezinhas inglesas dão mil
voltas em torno de si, e a chuva fina cai nos vidros do carro. Nas ruas o povo usa roupas tão malfeitas
que terminaram se tornando em estilo belo. E agasalham mesmo. Vejo uma criança de capotão escuro
e meias grosseiras e capuz enterrado abaixo das orelhas, com o rosto vívido e magro, olhos espertos
[20] e cara vermelha - e aquela entonação pura das vozes inglesas, interrogativas e orgulhosas.
Só agora sei quanto amei o vento de Londres que me fazia os olhos lacrimejar de raiva e a pele
gritar de irritação.
E depois tem as estradas, o campo inglês que é diverso de qualquer outro campo. Lembro-me de
árvores tão altas.
[25] E depois há o desejo de viajar de todo inglês - e isso é um movimento inquieto e amplo.
No teatro em Londres uma coisa essencial se passa. É de tremer de frio e de emoção: o ator inglês
é o homem mais sério da Inglaterra. Em poucas horas ele dá a cada um aquilo importante que se perde
na vida diária. Quando se sai, é a chuva escura, a rua molhada, as velhas ruas inglesas onde de noite
há o desejo de perigo. Vai-se jantar. Uma comida péssima irrita, no restaurante de comida tipicamente
[30] inglesa. Mas pode-se ir para um restaurante de comida alegre, dos estrangeiros, em Londres mesmo.
Lembro-me que houve a Idade Média na Inglaterra, e isso está nas torres. A segurança de certos
ingleses chega às vezes a se tornar engraçada. Nas ruas andam depressa, é um povo lutador. E se o
mundo não fosse tão doloroso, seria bonito ver a luta pela sobrevivência.
E depois há a saudade de escritores mortos. Tenho muita saudade de Lawrence.
[35] A rainha é suave, os jornais têm um jeito provinciano, e quando os ingleses e inglesas são bonitos,
passam logo a ter uma extraordinária beleza. E a criança inglesa é sempre linda, e quando abre a boca
para falar, aí é que fica lindíssima.
Tudo isso se chama saudade: procuro recuperar Londres na memória, nessas notas. E assim fica
apenas anotado, com a maior rapidez, antes que o sentimento passe.
CLARICE LISPECTOR Todas as crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.
* Palavra inglesa que se refere a névoa.
A Tower Bridge é uma ponte construída sobre o rio Tâmisa, em Londres. Essa ponte possui duas partes móveis que se elevam, possibilitando a passagem de grandes embarcações.
Admita que houve um descompasso entre as duas partes móveis da ponte, e os ângulos formados por elas com a horizontal não ficaram iguais, formando o triângulo ABC, conforme ilustrado a seguir.

Na imagem, ao prolongar o lado
do triângulo nos dois sentidos, forma-se o segmento
, sendo as medidas dos ângulos externos
e
.
A medida do ângulo
é igual a:
Questão 7 15408789
CAp-UERJ 9 ano 2023AS PONTES DE LONDRES
Todas as vezes que penso em Londres revejo as suas pontes. Achei muito natural estar na Inglaterra,
mas agora quando penso que lá estive meu coração se enche de gratidão. Vi em Londres uma terra
estranha e viva, cinzenta - tudo o que é cinzento misteriosamente vibra para mim, como se fosse a
reunião de todas as cores amansadas.
[5] Estive em contato com a feiura dos ingleses, que é uma das coisas que mais me atraem na Inglaterra.
É uma feiura tão peculiar, tão bela - e isso não são meras palavras. Fazia muito frio, e o vento dava
ao rosto e às mãos aquela vermelhidão crua que torna cada pessoa extremamente real. As mulheres
fazem compras com as cestas, os homens da City usam chapéu-coco. E o Tâmisa é sujo, tem lama.
Já houve peste em Londres. Uma vez se incendiou a cidade inteira. A peste e o incêndio estavam
[10] presentes em minha estada em Londres.
As pessoas bebem café horrível, em xícara grande, mas o café fumega. Fumegante como toda a
ilha, cujas pontes enegrecidas surgem da quase constante névoa. O fog* se exala das pedras do chão
e envolve as pontes.
As pontes de Londres são muito emocionantes. Umas são sólidas e ameaçadoras. Outras são
[15] puro esqueleto. Quanto aos ingleses, não são tão inteligentes. Mas a Inglaterra é um dos países mais
inteligentes do mundo. Estávamos de carro. Entre uma cidade e outra, as cidadezinhas inglesas dão mil
voltas em torno de si, e a chuva fina cai nos vidros do carro. Nas ruas o povo usa roupas tão malfeitas
que terminaram se tornando em estilo belo. E agasalham mesmo. Vejo uma criança de capotão escuro
e meias grosseiras e capuz enterrado abaixo das orelhas, com o rosto vívido e magro, olhos espertos
[20] e cara vermelha - e aquela entonação pura das vozes inglesas, interrogativas e orgulhosas.
Só agora sei quanto amei o vento de Londres que me fazia os olhos lacrimejar de raiva e a pele
gritar de irritação.
E depois tem as estradas, o campo inglês que é diverso de qualquer outro campo. Lembro-me de
árvores tão altas.
[25] E depois há o desejo de viajar de todo inglês - e isso é um movimento inquieto e amplo.
No teatro em Londres uma coisa essencial se passa. É de tremer de frio e de emoção: o ator inglês
é o homem mais sério da Inglaterra. Em poucas horas ele dá a cada um aquilo importante que se perde
na vida diária. Quando se sai, é a chuva escura, a rua molhada, as velhas ruas inglesas onde de noite
há o desejo de perigo. Vai-se jantar. Uma comida péssima irrita, no restaurante de comida tipicamente
[30] inglesa. Mas pode-se ir para um restaurante de comida alegre, dos estrangeiros, em Londres mesmo.
Lembro-me que houve a Idade Média na Inglaterra, e isso está nas torres. A segurança de certos
ingleses chega às vezes a se tornar engraçada. Nas ruas andam depressa, é um povo lutador. E se o
mundo não fosse tão doloroso, seria bonito ver a luta pela sobrevivência.
E depois há a saudade de escritores mortos. Tenho muita saudade de Lawrence.
[35] A rainha é suave, os jornais têm um jeito provinciano, e quando os ingleses e inglesas são bonitos,
passam logo a ter uma extraordinária beleza. E a criança inglesa é sempre linda, e quando abre a boca
para falar, aí é que fica lindíssima.
Tudo isso se chama saudade: procuro recuperar Londres na memória, nessas notas. E assim fica
apenas anotado, com a maior rapidez, antes que o sentimento passe.
CLARICE LISPECTOR Todas as crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.
* Palavra inglesa que se refere a névoa.
Lembro-me que houve a Idade Média na Inglaterra, e isso está nas torres. (l. 31)
O pronome isso tem a função de fazer referência ao seguinte termo:
Questão 6 15408788
CAp-UERJ 9 ano 2023AS PONTES DE LONDRES
Todas as vezes que penso em Londres revejo as suas pontes. Achei muito natural estar na Inglaterra,
mas agora quando penso que lá estive meu coração se enche de gratidão. Vi em Londres uma terra
estranha e viva, cinzenta - tudo o que é cinzento misteriosamente vibra para mim, como se fosse a
reunião de todas as cores amansadas.
[5] Estive em contato com a feiura dos ingleses, que é uma das coisas que mais me atraem na Inglaterra.
É uma feiura tão peculiar, tão bela - e isso não são meras palavras. Fazia muito frio, e o vento dava
ao rosto e às mãos aquela vermelhidão crua que torna cada pessoa extremamente real. As mulheres
fazem compras com as cestas, os homens da City usam chapéu-coco. E o Tâmisa é sujo, tem lama.
Já houve peste em Londres. Uma vez se incendiou a cidade inteira. A peste e o incêndio estavam
[10] presentes em minha estada em Londres.
As pessoas bebem café horrível, em xícara grande, mas o café fumega. Fumegante como toda a
ilha, cujas pontes enegrecidas surgem da quase constante névoa. O fog* se exala das pedras do chão
e envolve as pontes.
As pontes de Londres são muito emocionantes. Umas são sólidas e ameaçadoras. Outras são
[15] puro esqueleto. Quanto aos ingleses, não são tão inteligentes. Mas a Inglaterra é um dos países mais
inteligentes do mundo. Estávamos de carro. Entre uma cidade e outra, as cidadezinhas inglesas dão mil
voltas em torno de si, e a chuva fina cai nos vidros do carro. Nas ruas o povo usa roupas tão malfeitas
que terminaram se tornando em estilo belo. E agasalham mesmo. Vejo uma criança de capotão escuro
e meias grosseiras e capuz enterrado abaixo das orelhas, com o rosto vívido e magro, olhos espertos
[20] e cara vermelha - e aquela entonação pura das vozes inglesas, interrogativas e orgulhosas.
Só agora sei quanto amei o vento de Londres que me fazia os olhos lacrimejar de raiva e a pele
gritar de irritação.
E depois tem as estradas, o campo inglês que é diverso de qualquer outro campo. Lembro-me de
árvores tão altas.
[25] E depois há o desejo de viajar de todo inglês - e isso é um movimento inquieto e amplo.
No teatro em Londres uma coisa essencial se passa. É de tremer de frio e de emoção: o ator inglês
é o homem mais sério da Inglaterra. Em poucas horas ele dá a cada um aquilo importante que se perde
na vida diária. Quando se sai, é a chuva escura, a rua molhada, as velhas ruas inglesas onde de noite
há o desejo de perigo. Vai-se jantar. Uma comida péssima irrita, no restaurante de comida tipicamente
[30] inglesa. Mas pode-se ir para um restaurante de comida alegre, dos estrangeiros, em Londres mesmo.
Lembro-me que houve a Idade Média na Inglaterra, e isso está nas torres. A segurança de certos
ingleses chega às vezes a se tornar engraçada. Nas ruas andam depressa, é um povo lutador. E se o
mundo não fosse tão doloroso, seria bonito ver a luta pela sobrevivência.
E depois há a saudade de escritores mortos. Tenho muita saudade de Lawrence.
[35] A rainha é suave, os jornais têm um jeito provinciano, e quando os ingleses e inglesas são bonitos,
passam logo a ter uma extraordinária beleza. E a criança inglesa é sempre linda, e quando abre a boca
para falar, aí é que fica lindíssima.
Tudo isso se chama saudade: procuro recuperar Londres na memória, nessas notas. E assim fica
apenas anotado, com a maior rapidez, antes que o sentimento passe.
CLARICE LISPECTOR Todas as crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.
* Palavra inglesa que se refere a névoa.
E depois tem as estradas, o campo inglês que é diverso de qualquer outro campo. (l. 23)
E depois há o desejo de viajar de todo inglês (l. 25)
E depois há a saudade de escritores mortos. (l. 34)
A repetição dos termos sublinhados expressa ideia de:
06
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