Questões de EFAF Português - Leitura e Interpretação de Texto
7.497 Questões
Questão 5 15477838
CMRJ 6 Ano Português 2021Era uma vez - Sandy
Era uma vez
Um lugarzinho no meio do nada
Com sabor de chocolate
E cheiro de terra molhada
Era uma vez
A riqueza contra a simplicidade
Uma mostrando pra outra
Quem dava mais felicidade
Pra gente ser feliz
Tem que cultivar as nossas amizades
Os amigos de verdade
Pra gente ser feliz
Tem que mergulhar na própria fantasia
Na nossa liberdade
Uma história de amor
De aventura e de magia
Só tem a ver
Quem já foi criança um dia
Uma história de amor
De aventura e de magia
Só tem a ver
Quem já criança um dia
[...]
(Adaptado de https://www.vagalume.com.br/sandy-junior/era-uma-vez.html)
Nos versos do TEXTO, "A riqueza contra a simplicidade/ Uma mostrando pra outra/ Quem dava mais felicidade”, percebe-se um par de palavras que estabelecem uma relação de contraste.
Esse tipo de relação é também encontrado na alternativa:
Questão 4 15477826
CMRJ 6 Ano Português 2021NO RETIRO DA FIGUEIRA
(Moacyr Scliar)
Sempre achei que era bom demais. O lugar, principalmente. O lugar era... era maravilhoso.
Bem como diziao prospecto: maravilhoso. Arborizado, tranquilo, um dos últimos locais - dizia о
anúncio - onde você pode ouvir um bem-te-vi cantar. Verdade: na primeira vez que fomos lá,
ouvimos o bem-te-vi. E também constatamos que as casas eram sólidas e bonitas, exatamente como
[5] o prospecto as descrevia: estilo moderno, sólidas e bonitas. Vimos os gramados, os parques, os
pôneis, o pequeno lago. Vimos o campo de aviação. Vimos a majestosa figueira que dava nome ao
condomínio: Retiro da Figueira.
Mas o que mais agradou à minha mulher foi a segurança. Durante todo o trajeto de volta à
cidade - e eram uns bons cinquenta minutos - ela falou, entusiasmada, da cerca eletrificada, das
[10] torres de vigia, dos holofotes, do sistema de alarmes - e sobretudo dos guardas. Oito guardas,
homens fortes, decididos - mas amáveis, educados. Aliás, quem nos recebeu naquela visita, e na
seguinte, foi o chefe deles, um senhor tão inteligente e culto que logo pensei: "ah, mas ele deve ser
formado em alguma universidade". De fato: no decorrer da conversa ele mencionou - mas de
maneira casual - que era formado em Direito. O que só fez aumentar o entusiasmo de minha mulher.
[15] Ela andava muito assustada ultimamente. Os assaltos violentos se sucediam na vizinhança;
trancas e porteiros eletrônicos já não detinham os criminosos. Todos os dias sabíamos de alguém
roubado e espancado; (..) minha mulher decidiu - tínhamos de mudar de bairro. Tínhamos de
procurar um lugar seguro.
Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta. Às vezes penso que se
[20] morássemos num edifício mais seguro, o portador daquela mensagem publicitária nunca teria
chegado a nós, e, talvez... Mas isto agora são apenas suposições. De qualquer modo, minha mulher
ficou encantada com o Retiro da Figueira. Meus filhos estavam vidrados nos pôneis. E eu acabava de
ser promovido na firma. As coisas todas se encadearam, e o que começou com um prospecto sendo
enfiado sob a porta transformou-se - como dizia o texto - num novo estilo de vida.
[25] Não fomos o primeiro a comprar casa no Retiro da Figueira. Pelo contrário, entre nossa
primeira visita e a segunda - uma semana após - a maior parte das trinta residências já tinha sido
vendida. O chefe dos guardas me apresentou a alguns dos compradores. Gostei deles: gente como
eu, diretores de empresa, profissionais liberais, dois fazendeiros. Todos tinham vindo pelo prospecto.
E quase todos tinham se decidido pelo lugar por causa da segurança. Naquela semana descobri que
[30] o prospecto tinha sido enviado a uma quantidade limitada de pessoas. Na minha firma, por exemplo,
só eu o tinha recebido. Minha mulher atribuiu o fato a uma seleção cuidadosa de futuros moradores
- e viu mais um motivo de satisfação. Quanto a mim, estava achando tudo muito bom. Bom demais.
Mudamo-nos. A vida lá era realmente um encanto. Os bem-te-vis eram pontuais: às sete da
manhã, começavam seu concerto. Os pôneis eram mansos, as aleias ensaibradas estavam sempre
[35] limpas. A brisa agitava as árvores do parque - cento e doze, bem como dizia o prospecto. Por outro
lado, o sistema de alarmes era impecável. Os guardas compareciam periodicamente à nossa casa
para ver se estava tudo bem - sempre gentis, sempre sorridentes. O chefe deles era uma pessoa
particularmente interessada: organizava festas e torneios, preocupava-se com nosso bem-estar. Fez
uma lista dos parentes e amigos dos moradores - para qualquer emergência, explicou, com um
[40] sorriso tranquilizador. O primeiro mês decorreu - tal como prometido no prospecto - num clima de
sonho. De sonho, mesmo.
Uma manhã de domingo, muito cedo - lembro-me que os bem-te-vis ainda não tinham
começado a cantar - soou a sirene de alarmes. Nunca tinha tocado antes, de modo que ficamos um
pouco assustados - um pouco, não muito. Mas sabíamos o que fazer: nos dirigimos, em ordem, ao
[45] salão e festas, perto do lago. Quase todos ainda de roupão ou pijama.
O chefe dos guardas estava lá, ladeado por seus homens, todos armados de fuzis. Fez-nos
sentar, ofereceu café. Depois, sempre pedindo desculpas pelo transtorno, explicou o motivo da
reunião: é que havia marginais nos matos ao redor do Retiro e ele, avisado pela polícia, decidira pedir
que não saíssemos naquele domingo.
[50] - Afinal - disse, em tom de gracejo - está um belo domingo, os pôneis estão aí mesmo, as
quadras de tênis...
Era mesmo um homem muito simpático. Ninguém chegou a ficar verdadeiramente
contrariado.
Contrariados ficaram alguns no dia seguinte, quando a sirene tornou a soar de madrugada.
[55] Reunimo-nos de novo no salão de festas, uns resmungando que era segunda-feira, dia de trabalho.
Sempre sorrindo, o chefe dos guardas pediu desculpas novamente e disse que infelizmente não
poderíamos sair - os marginais continuavam nos matos, soltos. Gente perigosa; entre eles, dois
assassinos foragidos. À pergunta de um irado cirurgião, o chefe dos guardas respondeu que, mesmo
de carro, não poderíamos sair; os bandidos poderiam bloquear a estreita estrada do Retiro.
[60] - E vocês, por que não nos acompanham? - perguntou o cirurgião.
- E quem vai cuidar da família de vocês? – disse o chefe dos guardas, sempre sorrindo.
Ficamos retidos naquele dia e no seguinte. Foi aí que a polícia cercou o local: dezenas de
viaturas com homens armados, alguns com máscaras contra gases. De nossas janelas, nós os víamos
e reconhecíamos: o chefe dos guardas estava com a razão.
[65] Passávamos o tempo jogando cartas, passeando ou simplesmente não fazendo nada. Alguns
estavam até gostando. Eu não. Pode parecer presunção dizer isto agora, mas eu não estava gostando
nada daquilo.
Foi no quarto dia que o avião desceu no campo de pouso. Um jatinho. Corremos para lá.
Um homem desceu e entregou uma maleta ao chefe dos guardas. Depois olhou para nós -
[70] amedrontado, pareceu-me - e saiu pelo portão da entrada, quase correndo.
O chefe dos guardas fez sinal para que não nos aproximássemos. Entrou no avião. Deixou a
porta aberta, e assim pudemos ver que examinava o conteúdo da maleta. Fechou-a, chegou à porta e
fez um sinal. Os guardas vieram correndo, entraram todos no jatinho. A porta se fechou, o avião
decolou e sumiu.
[75] Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo de que estão aproveitando o
dinheiro pago por nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais ao
nosso - que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais.
(Adaptado de SCLIAR, Moacyr. No Retiro da Figueira. - Contos contemporâneos. São Paulo: Moderna, 2005. p. 76.)
Com base na leitura do TEXTO, marque a opção que melhor explica a razão determinante para а escolha do prospecto como meio de divulgação do Retiro da Figueira.
Questão 3 15477825
CMRJ 6 Ano Português 2021NO RETIRO DA FIGUEIRA
(Moacyr Scliar)
Sempre achei que era bom demais. O lugar, principalmente. O lugar era... era maravilhoso.
Bem como diziao prospecto: maravilhoso. Arborizado, tranquilo, um dos últimos locais - dizia о
anúncio - onde você pode ouvir um bem-te-vi cantar. Verdade: na primeira vez que fomos lá,
ouvimos o bem-te-vi. E também constatamos que as casas eram sólidas e bonitas, exatamente como
[5] o prospecto as descrevia: estilo moderno, sólidas e bonitas. Vimos os gramados, os parques, os
pôneis, o pequeno lago. Vimos o campo de aviação. Vimos a majestosa figueira que dava nome ao
condomínio: Retiro da Figueira.
Mas o que mais agradou à minha mulher foi a segurança. Durante todo o trajeto de volta à
cidade - e eram uns bons cinquenta minutos - ela falou, entusiasmada, da cerca eletrificada, das
[10] torres de vigia, dos holofotes, do sistema de alarmes - e sobretudo dos guardas. Oito guardas,
homens fortes, decididos - mas amáveis, educados. Aliás, quem nos recebeu naquela visita, e na
seguinte, foi o chefe deles, um senhor tão inteligente e culto que logo pensei: "ah, mas ele deve ser
formado em alguma universidade". De fato: no decorrer da conversa ele mencionou - mas de
maneira casual - que era formado em Direito. O que só fez aumentar o entusiasmo de minha mulher.
[15] Ela andava muito assustada ultimamente. Os assaltos violentos se sucediam na vizinhança;
trancas e porteiros eletrônicos já não detinham os criminosos. Todos os dias sabíamos de alguém
roubado e espancado; (..) minha mulher decidiu - tínhamos de mudar de bairro. Tínhamos de
procurar um lugar seguro.
Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta. Às vezes penso que se
[20] morássemos num edifício mais seguro, o portador daquela mensagem publicitária nunca teria
chegado a nós, e, talvez... Mas isto agora são apenas suposições. De qualquer modo, minha mulher
ficou encantada com o Retiro da Figueira. Meus filhos estavam vidrados nos pôneis. E eu acabava de
ser promovido na firma. As coisas todas se encadearam, e o que começou com um prospecto sendo
enfiado sob a porta transformou-se - como dizia o texto - num novo estilo de vida.
[25] Não fomos o primeiro a comprar casa no Retiro da Figueira. Pelo contrário, entre nossa
primeira visita e a segunda - uma semana após - a maior parte das trinta residências já tinha sido
vendida. O chefe dos guardas me apresentou a alguns dos compradores. Gostei deles: gente como
eu, diretores de empresa, profissionais liberais, dois fazendeiros. Todos tinham vindo pelo prospecto.
E quase todos tinham se decidido pelo lugar por causa da segurança. Naquela semana descobri que
[30] o prospecto tinha sido enviado a uma quantidade limitada de pessoas. Na minha firma, por exemplo,
só eu o tinha recebido. Minha mulher atribuiu o fato a uma seleção cuidadosa de futuros moradores
- e viu mais um motivo de satisfação. Quanto a mim, estava achando tudo muito bom. Bom demais.
Mudamo-nos. A vida lá era realmente um encanto. Os bem-te-vis eram pontuais: às sete da
manhã, começavam seu concerto. Os pôneis eram mansos, as aleias ensaibradas estavam sempre
[35] limpas. A brisa agitava as árvores do parque - cento e doze, bem como dizia o prospecto. Por outro
lado, o sistema de alarmes era impecável. Os guardas compareciam periodicamente à nossa casa
para ver se estava tudo bem - sempre gentis, sempre sorridentes. O chefe deles era uma pessoa
particularmente interessada: organizava festas e torneios, preocupava-se com nosso bem-estar. Fez
uma lista dos parentes e amigos dos moradores - para qualquer emergência, explicou, com um
[40] sorriso tranquilizador. O primeiro mês decorreu - tal como prometido no prospecto - num clima de
sonho. De sonho, mesmo.
Uma manhã de domingo, muito cedo - lembro-me que os bem-te-vis ainda não tinham
começado a cantar - soou a sirene de alarmes. Nunca tinha tocado antes, de modo que ficamos um
pouco assustados - um pouco, não muito. Mas sabíamos o que fazer: nos dirigimos, em ordem, ao
[45] salão e festas, perto do lago. Quase todos ainda de roupão ou pijama.
O chefe dos guardas estava lá, ladeado por seus homens, todos armados de fuzis. Fez-nos
sentar, ofereceu café. Depois, sempre pedindo desculpas pelo transtorno, explicou o motivo da
reunião: é que havia marginais nos matos ao redor do Retiro e ele, avisado pela polícia, decidira pedir
que não saíssemos naquele domingo.
[50] - Afinal - disse, em tom de gracejo - está um belo domingo, os pôneis estão aí mesmo, as
quadras de tênis...
Era mesmo um homem muito simpático. Ninguém chegou a ficar verdadeiramente
contrariado.
Contrariados ficaram alguns no dia seguinte, quando a sirene tornou a soar de madrugada.
[55] Reunimo-nos de novo no salão de festas, uns resmungando que era segunda-feira, dia de trabalho.
Sempre sorrindo, o chefe dos guardas pediu desculpas novamente e disse que infelizmente não
poderíamos sair - os marginais continuavam nos matos, soltos. Gente perigosa; entre eles, dois
assassinos foragidos. À pergunta de um irado cirurgião, o chefe dos guardas respondeu que, mesmo
de carro, não poderíamos sair; os bandidos poderiam bloquear a estreita estrada do Retiro.
[60] - E vocês, por que não nos acompanham? - perguntou o cirurgião.
- E quem vai cuidar da família de vocês? – disse o chefe dos guardas, sempre sorrindo.
Ficamos retidos naquele dia e no seguinte. Foi aí que a polícia cercou o local: dezenas de
viaturas com homens armados, alguns com máscaras contra gases. De nossas janelas, nós os víamos
e reconhecíamos: o chefe dos guardas estava com a razão.
[65] Passávamos o tempo jogando cartas, passeando ou simplesmente não fazendo nada. Alguns
estavam até gostando. Eu não. Pode parecer presunção dizer isto agora, mas eu não estava gostando
nada daquilo.
Foi no quarto dia que o avião desceu no campo de pouso. Um jatinho. Corremos para lá.
Um homem desceu e entregou uma maleta ao chefe dos guardas. Depois olhou para nós -
[70] amedrontado, pareceu-me - e saiu pelo portão da entrada, quase correndo.
O chefe dos guardas fez sinal para que não nos aproximássemos. Entrou no avião. Deixou a
porta aberta, e assim pudemos ver que examinava o conteúdo da maleta. Fechou-a, chegou à porta e
fez um sinal. Os guardas vieram correndo, entraram todos no jatinho. A porta se fechou, o avião
decolou e sumiu.
[75] Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo de que estão aproveitando o
dinheiro pago por nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais ao
nosso - que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais.
(Adaptado de SCLIAR, Moacyr. No Retiro da Figueira. - Contos contemporâneos. São Paulo: Moderna, 2005. p. 76.)
Da leitura global do TEXTO, só é correto afirmar que:
Questão 2 15477824
CMRJ 6 Ano Português 2021NO RETIRO DA FIGUEIRA
(Moacyr Scliar)
Sempre achei que era bom demais. O lugar, principalmente. O lugar era... era maravilhoso.
Bem como diziao prospecto: maravilhoso. Arborizado, tranquilo, um dos últimos locais - dizia о
anúncio - onde você pode ouvir um bem-te-vi cantar. Verdade: na primeira vez que fomos lá,
ouvimos o bem-te-vi. E também constatamos que as casas eram sólidas e bonitas, exatamente como
[5] o prospecto as descrevia: estilo moderno, sólidas e bonitas. Vimos os gramados, os parques, os
pôneis, o pequeno lago. Vimos o campo de aviação. Vimos a majestosa figueira que dava nome ao
condomínio: Retiro da Figueira.
Mas o que mais agradou à minha mulher foi a segurança. Durante todo o trajeto de volta à
cidade - e eram uns bons cinquenta minutos - ela falou, entusiasmada, da cerca eletrificada, das
[10] torres de vigia, dos holofotes, do sistema de alarmes - e sobretudo dos guardas. Oito guardas,
homens fortes, decididos - mas amáveis, educados. Aliás, quem nos recebeu naquela visita, e na
seguinte, foi o chefe deles, um senhor tão inteligente e culto que logo pensei: "ah, mas ele deve ser
formado em alguma universidade". De fato: no decorrer da conversa ele mencionou - mas de
maneira casual - que era formado em Direito. O que só fez aumentar o entusiasmo de minha mulher.
[15] Ela andava muito assustada ultimamente. Os assaltos violentos se sucediam na vizinhança;
trancas e porteiros eletrônicos já não detinham os criminosos. Todos os dias sabíamos de alguém
roubado e espancado; (..) minha mulher decidiu - tínhamos de mudar de bairro. Tínhamos de
procurar um lugar seguro.
Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta. Às vezes penso que se
[20] morássemos num edifício mais seguro, o portador daquela mensagem publicitária nunca teria
chegado a nós, e, talvez... Mas isto agora são apenas suposições. De qualquer modo, minha mulher
ficou encantada com o Retiro da Figueira. Meus filhos estavam vidrados nos pôneis. E eu acabava de
ser promovido na firma. As coisas todas se encadearam, e o que começou com um prospecto sendo
enfiado sob a porta transformou-se - como dizia o texto - num novo estilo de vida.
[25] Não fomos o primeiro a comprar casa no Retiro da Figueira. Pelo contrário, entre nossa
primeira visita e a segunda - uma semana após - a maior parte das trinta residências já tinha sido
vendida. O chefe dos guardas me apresentou a alguns dos compradores. Gostei deles: gente como
eu, diretores de empresa, profissionais liberais, dois fazendeiros. Todos tinham vindo pelo prospecto.
E quase todos tinham se decidido pelo lugar por causa da segurança. Naquela semana descobri que
[30] o prospecto tinha sido enviado a uma quantidade limitada de pessoas. Na minha firma, por exemplo,
só eu o tinha recebido. Minha mulher atribuiu o fato a uma seleção cuidadosa de futuros moradores
- e viu mais um motivo de satisfação. Quanto a mim, estava achando tudo muito bom. Bom demais.
Mudamo-nos. A vida lá era realmente um encanto. Os bem-te-vis eram pontuais: às sete da
manhã, começavam seu concerto. Os pôneis eram mansos, as aleias ensaibradas estavam sempre
[35] limpas. A brisa agitava as árvores do parque - cento e doze, bem como dizia o prospecto. Por outro
lado, o sistema de alarmes era impecável. Os guardas compareciam periodicamente à nossa casa
para ver se estava tudo bem - sempre gentis, sempre sorridentes. O chefe deles era uma pessoa
particularmente interessada: organizava festas e torneios, preocupava-se com nosso bem-estar. Fez
uma lista dos parentes e amigos dos moradores - para qualquer emergência, explicou, com um
[40] sorriso tranquilizador. O primeiro mês decorreu - tal como prometido no prospecto - num clima de
sonho. De sonho, mesmo.
Uma manhã de domingo, muito cedo - lembro-me que os bem-te-vis ainda não tinham
começado a cantar - soou a sirene de alarmes. Nunca tinha tocado antes, de modo que ficamos um
pouco assustados - um pouco, não muito. Mas sabíamos o que fazer: nos dirigimos, em ordem, ao
[45] salão e festas, perto do lago. Quase todos ainda de roupão ou pijama.
O chefe dos guardas estava lá, ladeado por seus homens, todos armados de fuzis. Fez-nos
sentar, ofereceu café. Depois, sempre pedindo desculpas pelo transtorno, explicou o motivo da
reunião: é que havia marginais nos matos ao redor do Retiro e ele, avisado pela polícia, decidira pedir
que não saíssemos naquele domingo.
[50] - Afinal - disse, em tom de gracejo - está um belo domingo, os pôneis estão aí mesmo, as
quadras de tênis...
Era mesmo um homem muito simpático. Ninguém chegou a ficar verdadeiramente
contrariado.
Contrariados ficaram alguns no dia seguinte, quando a sirene tornou a soar de madrugada.
[55] Reunimo-nos de novo no salão de festas, uns resmungando que era segunda-feira, dia de trabalho.
Sempre sorrindo, o chefe dos guardas pediu desculpas novamente e disse que infelizmente não
poderíamos sair - os marginais continuavam nos matos, soltos. Gente perigosa; entre eles, dois
assassinos foragidos. À pergunta de um irado cirurgião, o chefe dos guardas respondeu que, mesmo
de carro, não poderíamos sair; os bandidos poderiam bloquear a estreita estrada do Retiro.
[60] - E vocês, por que não nos acompanham? - perguntou o cirurgião.
- E quem vai cuidar da família de vocês? – disse o chefe dos guardas, sempre sorrindo.
Ficamos retidos naquele dia e no seguinte. Foi aí que a polícia cercou o local: dezenas de
viaturas com homens armados, alguns com máscaras contra gases. De nossas janelas, nós os víamos
e reconhecíamos: o chefe dos guardas estava com a razão.
[65] Passávamos o tempo jogando cartas, passeando ou simplesmente não fazendo nada. Alguns
estavam até gostando. Eu não. Pode parecer presunção dizer isto agora, mas eu não estava gostando
nada daquilo.
Foi no quarto dia que o avião desceu no campo de pouso. Um jatinho. Corremos para lá.
Um homem desceu e entregou uma maleta ao chefe dos guardas. Depois olhou para nós -
[70] amedrontado, pareceu-me - e saiu pelo portão da entrada, quase correndo.
O chefe dos guardas fez sinal para que não nos aproximássemos. Entrou no avião. Deixou a
porta aberta, e assim pudemos ver que examinava o conteúdo da maleta. Fechou-a, chegou à porta e
fez um sinal. Os guardas vieram correndo, entraram todos no jatinho. A porta se fechou, o avião
decolou e sumiu.
[75] Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo de que estão aproveitando o
dinheiro pago por nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais ao
nosso - que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais.
(Adaptado de SCLIAR, Moacyr. No Retiro da Figueira. - Contos contemporâneos. São Paulo: Moderna, 2005. p. 76.)
Assinale a alternativa que apresenta um trecho do TEXTO que serve para explicitar a desconfiança prévia do narrador com relação à segurança no Retiro da Figueira.
Questão 1 15477805
CMRJ 6 Ano Português 2021NO RETIRO DA FIGUEIRA
(Moacyr Scliar)
Sempre achei que era bom demais. O lugar, principalmente. O lugar era... era maravilhoso.
Bem como diziao prospecto: maravilhoso. Arborizado, tranquilo, um dos últimos locais - dizia о
anúncio - onde você pode ouvir um bem-te-vi cantar. Verdade: na primeira vez que fomos lá,
ouvimos o bem-te-vi. E também constatamos que as casas eram sólidas e bonitas, exatamente como
[5] o prospecto as descrevia: estilo moderno, sólidas e bonitas. Vimos os gramados, os parques, os
pôneis, o pequeno lago. Vimos o campo de aviação. Vimos a majestosa figueira que dava nome ao
condomínio: Retiro da Figueira.
Mas o que mais agradou à minha mulher foi a segurança. Durante todo o trajeto de volta à
cidade - e eram uns bons cinquenta minutos - ela falou, entusiasmada, da cerca eletrificada, das
[10] torres de vigia, dos holofotes, do sistema de alarmes - e sobretudo dos guardas. Oito guardas,
homens fortes, decididos - mas amáveis, educados. Aliás, quem nos recebeu naquela visita, e na
seguinte, foi o chefe deles, um senhor tão inteligente e culto que logo pensei: "ah, mas ele deve ser
formado em alguma universidade". De fato: no decorrer da conversa ele mencionou - mas de
maneira casual - que era formado em Direito. O que só fez aumentar o entusiasmo de minha mulher.
[15] Ela andava muito assustada ultimamente. Os assaltos violentos se sucediam na vizinhança;
trancas e porteiros eletrônicos já não detinham os criminosos. Todos os dias sabíamos de alguém
roubado e espancado; (..) minha mulher decidiu - tínhamos de mudar de bairro. Tínhamos de
procurar um lugar seguro.
Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta. Às vezes penso que se
[20] morássemos num edifício mais seguro, o portador daquela mensagem publicitária nunca teria
chegado a nós, e, talvez... Mas isto agora são apenas suposições. De qualquer modo, minha mulher
ficou encantada com o Retiro da Figueira. Meus filhos estavam vidrados nos pôneis. E eu acabava de
ser promovido na firma. As coisas todas se encadearam, e o que começou com um prospecto sendo
enfiado sob a porta transformou-se - como dizia o texto - num novo estilo de vida.
[25] Não fomos o primeiro a comprar casa no Retiro da Figueira. Pelo contrário, entre nossa
primeira visita e a segunda - uma semana após - a maior parte das trinta residências já tinha sido
vendida. O chefe dos guardas me apresentou a alguns dos compradores. Gostei deles: gente como
eu, diretores de empresa, profissionais liberais, dois fazendeiros. Todos tinham vindo pelo prospecto.
E quase todos tinham se decidido pelo lugar por causa da segurança. Naquela semana descobri que
[30] o prospecto tinha sido enviado a uma quantidade limitada de pessoas. Na minha firma, por exemplo,
só eu o tinha recebido. Minha mulher atribuiu o fato a uma seleção cuidadosa de futuros moradores
- e viu mais um motivo de satisfação. Quanto a mim, estava achando tudo muito bom. Bom demais.
Mudamo-nos. A vida lá era realmente um encanto. Os bem-te-vis eram pontuais: às sete da
manhã, começavam seu concerto. Os pôneis eram mansos, as aleias ensaibradas estavam sempre
[35] limpas. A brisa agitava as árvores do parque - cento e doze, bem como dizia o prospecto. Por outro
lado, o sistema de alarmes era impecável. Os guardas compareciam periodicamente à nossa casa
para ver se estava tudo bem - sempre gentis, sempre sorridentes. O chefe deles era uma pessoa
particularmente interessada: organizava festas e torneios, preocupava-se com nosso bem-estar. Fez
uma lista dos parentes e amigos dos moradores - para qualquer emergência, explicou, com um
[40] sorriso tranquilizador. O primeiro mês decorreu - tal como prometido no prospecto - num clima de
sonho. De sonho, mesmo.
Uma manhã de domingo, muito cedo - lembro-me que os bem-te-vis ainda não tinham
começado a cantar - soou a sirene de alarmes. Nunca tinha tocado antes, de modo que ficamos um
pouco assustados - um pouco, não muito. Mas sabíamos o que fazer: nos dirigimos, em ordem, ao
[45] salão e festas, perto do lago. Quase todos ainda de roupão ou pijama.
O chefe dos guardas estava lá, ladeado por seus homens, todos armados de fuzis. Fez-nos
sentar, ofereceu café. Depois, sempre pedindo desculpas pelo transtorno, explicou o motivo da
reunião: é que havia marginais nos matos ao redor do Retiro e ele, avisado pela polícia, decidira pedir
que não saíssemos naquele domingo.
[50] - Afinal - disse, em tom de gracejo - está um belo domingo, os pôneis estão aí mesmo, as
quadras de tênis...
Era mesmo um homem muito simpático. Ninguém chegou a ficar verdadeiramente
contrariado.
Contrariados ficaram alguns no dia seguinte, quando a sirene tornou a soar de madrugada.
[55] Reunimo-nos de novo no salão de festas, uns resmungando que era segunda-feira, dia de trabalho.
Sempre sorrindo, o chefe dos guardas pediu desculpas novamente e disse que infelizmente não
poderíamos sair - os marginais continuavam nos matos, soltos. Gente perigosa; entre eles, dois
assassinos foragidos. À pergunta de um irado cirurgião, o chefe dos guardas respondeu que, mesmo
de carro, não poderíamos sair; os bandidos poderiam bloquear a estreita estrada do Retiro.
[60] - E vocês, por que não nos acompanham? - perguntou o cirurgião.
- E quem vai cuidar da família de vocês? – disse o chefe dos guardas, sempre sorrindo.
Ficamos retidos naquele dia e no seguinte. Foi aí que a polícia cercou o local: dezenas de
viaturas com homens armados, alguns com máscaras contra gases. De nossas janelas, nós os víamos
e reconhecíamos: o chefe dos guardas estava com a razão.
[65] Passávamos o tempo jogando cartas, passeando ou simplesmente não fazendo nada. Alguns
estavam até gostando. Eu não. Pode parecer presunção dizer isto agora, mas eu não estava gostando
nada daquilo.
Foi no quarto dia que o avião desceu no campo de pouso. Um jatinho. Corremos para lá.
Um homem desceu e entregou uma maleta ao chefe dos guardas. Depois olhou para nós -
[70] amedrontado, pareceu-me - e saiu pelo portão da entrada, quase correndo.
O chefe dos guardas fez sinal para que não nos aproximássemos. Entrou no avião. Deixou a
porta aberta, e assim pudemos ver que examinava o conteúdo da maleta. Fechou-a, chegou à porta e
fez um sinal. Os guardas vieram correndo, entraram todos no jatinho. A porta se fechou, o avião
decolou e sumiu.
[75] Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo de que estão aproveitando o
dinheiro pago por nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais ao
nosso - que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais.
(Adaptado de SCLIAR, Moacyr. No Retiro da Figueira. - Contos contemporâneos. São Paulo: Moderna, 2005. p. 76.)
Para organizar e executar todos os protocolos de segurança do condomínio, o chefe dos guardas se comportou de forma educada e impecável, o que lhe rendeu elogios que, nos parágrafos 2 e 6 do TEXTO, dão a ele a imagem de
Questão 14 15405414
FIRJAN 2021Leia a matéria a seguir para responder à questão.
Among Us é o jogo mais popular do momento. Isso é o que dados de diferentes empresas de pesquisa mostram. Para ser ter apenas uma ideia disso, levantamento do Sensor Tower apontou que Among Us é o game mais baixado para smartphones neste ano, superando outros gigantes como PUBG Mobile.
O curioso é que Among Us não foi lançado em 2020. O game estreou em 2018, primeiro para Android e iOS, depois ganhando uma versão para PC no final do mesmo ano. Os desenvolvedores da InnerSloth já estavam programando a continuação do título, mas devido ao sucesso atual, preferiram cancelar o lançamento de Among Us 2 , concentrando-se apenas em melhorar o atual.
Porque será, então, que o título só caiu no gosto do público agora, depois de dois anos no mercado? Um conjunto de fatores pode explicar isso.
Do analógico para o digital
Among Us se baseia em uma mecânica simples: em um grupo de até 10 pessoas, um ou mais participantes podem ser inimigos dos demais. Enquanto tripulantes de uma nave precisam fazer missões simples, os impostores precisam matar as pessoas e sabotar a nave sem que seja pego. Caso alguém encontre um corpo, ou tenha suspeitas, pode chamar uma reunião para decidir quem é o vilão que deve ser eliminado na rodada.
A dinâmica consiste, portanto, em debates e observações para descobrir quais pessoas são as impostoras, antes que elas eliminem os mocinhos da história.
Tal mecânica não é nem de longe inovadora e já aparecia em rodas de amigos como o jogo analógico conhecido como "A cidade dorme", "Vila Dorme", também traduzidos do inglês como "Lobisomem" e "Máfia".
Adaptado de https://canaltech.com.br/games/among-us-sucesso-como-explicar-172754/

A tirinha, de Carlos Ruas, retrata um momento da dinâmica do jogo "Among us", descrita pela matéria do Canal Tech que é
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