Questões de EFAF Português
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Questão 6 10737061
CMBH 6° Ano - Português 2011A DOIDA
Carlos Drummond de Andrade
1°§ A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se.
2°§ Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores.
3°§ Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de sessenta anos). Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e desaparecia. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, mantimentos e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável.
4°§ Vinte anos de existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há como mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças.
5°§ E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra.
6°§ Os três verificaram que quase não dava mais gosto apedrejar a casa. As vidraças partidas não se recompunham mais. Em todo caso, o mais velho comandou, e os outros obedeceram na forma do sagrado costume. Pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado.
7°§ O projétil bateu no canudo de lata enegrecido – blem – e veio espatifar uma telha, com estrondo. Um bem-te-vi assustado fugiu da mangueira próxima. A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Então o do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos. E era tudo a mesma paz.
8°§ Aí o terceiro do grupo, em seus onze anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Os companheiros não queriam segui-lo.
9°§ O garoto empurrou o portão: abriu-se. Então, não vivia trancado?... E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso. Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo. Curioso como o jardim se parecia com qualquer um; apenas era mais selvagem. Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois atacar a janela. Chegou perto do animal, que correu. Na perseguição, foi parar rente do chalé, junto à cancelinha azul que fechava a varanda da frente.
10°§ E o garoto subiu os dois degraus, empurrou a cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora. Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução.
11°§ A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma panela no chão, e a pedra que o companheiro jogara. Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia pois estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou a janela, pisou, indagador, no soalho gretado, que cedia. A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro.
12°§ Atrás do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto erguido, a doida esticava o rosto para frente, na investigação do rumor.
13°§ Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada.
14°§ Ele encarava-a com interesse. Era simplesmente uma velha. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.
15°§ A criança sorriu, envergonhada, sem saber o que fizesse. Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido.
16°§ Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se timidamente, o confirmavam.
17°§ Talvez pedisse água. A garrafa de barro para água estava no criado-mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber.
18°§ Fazia tudo naturalmente, e nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria ideia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo.
19°§ Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem.
20°§ Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam.
21°§ Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio...
22°§ Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de concordância. Ficou perplexo, indeciso. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa e Prosa. 3 ed. p. 653 a 658. Rio de Janeiro, Companhia José Aguilar, 1973. Texto com adaptações.)
Observe o trecho: “Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção.” (2º parágrafo).
Além do que está descrito na frase, os meninos ainda pensaram em:
Questão 5 10737060
CMBH 6° Ano - Português 2011A DOIDA
Carlos Drummond de Andrade
1°§ A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se.
2°§ Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores.
3°§ Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de sessenta anos). Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e desaparecia. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, mantimentos e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável.
4°§ Vinte anos de existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há como mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças.
5°§ E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra.
6°§ Os três verificaram que quase não dava mais gosto apedrejar a casa. As vidraças partidas não se recompunham mais. Em todo caso, o mais velho comandou, e os outros obedeceram na forma do sagrado costume. Pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado.
7°§ O projétil bateu no canudo de lata enegrecido – blem – e veio espatifar uma telha, com estrondo. Um bem-te-vi assustado fugiu da mangueira próxima. A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Então o do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos. E era tudo a mesma paz.
8°§ Aí o terceiro do grupo, em seus onze anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Os companheiros não queriam segui-lo.
9°§ O garoto empurrou o portão: abriu-se. Então, não vivia trancado?... E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso. Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo. Curioso como o jardim se parecia com qualquer um; apenas era mais selvagem. Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois atacar a janela. Chegou perto do animal, que correu. Na perseguição, foi parar rente do chalé, junto à cancelinha azul que fechava a varanda da frente.
10°§ E o garoto subiu os dois degraus, empurrou a cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora. Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução.
11°§ A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma panela no chão, e a pedra que o companheiro jogara. Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia pois estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou a janela, pisou, indagador, no soalho gretado, que cedia. A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro.
12°§ Atrás do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto erguido, a doida esticava o rosto para frente, na investigação do rumor.
13°§ Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada.
14°§ Ele encarava-a com interesse. Era simplesmente uma velha. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.
15°§ A criança sorriu, envergonhada, sem saber o que fizesse. Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido.
16°§ Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se timidamente, o confirmavam.
17°§ Talvez pedisse água. A garrafa de barro para água estava no criado-mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber.
18°§ Fazia tudo naturalmente, e nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria ideia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo.
19°§ Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem.
20°§ Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam.
21°§ Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio...
22°§ Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de concordância. Ficou perplexo, indeciso. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa e Prosa. 3 ed. p. 653 a 658. Rio de Janeiro, Companhia José Aguilar, 1973. Texto com adaptações.)
Após adentrar o jardim da casa da doida, o menino:
Questão 4 10737059
CMBH 6° Ano - Português 2011A DOIDA
Carlos Drummond de Andrade
1°§ A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se.
2°§ Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores.
3°§ Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de sessenta anos). Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e desaparecia. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, mantimentos e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável.
4°§ Vinte anos de existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há como mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças.
5°§ E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra.
6°§ Os três verificaram que quase não dava mais gosto apedrejar a casa. As vidraças partidas não se recompunham mais. Em todo caso, o mais velho comandou, e os outros obedeceram na forma do sagrado costume. Pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado.
7°§ O projétil bateu no canudo de lata enegrecido – blem – e veio espatifar uma telha, com estrondo. Um bem-te-vi assustado fugiu da mangueira próxima. A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Então o do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos. E era tudo a mesma paz.
8°§ Aí o terceiro do grupo, em seus onze anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Os companheiros não queriam segui-lo.
9°§ O garoto empurrou o portão: abriu-se. Então, não vivia trancado?... E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso. Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo. Curioso como o jardim se parecia com qualquer um; apenas era mais selvagem. Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois atacar a janela. Chegou perto do animal, que correu. Na perseguição, foi parar rente do chalé, junto à cancelinha azul que fechava a varanda da frente.
10°§ E o garoto subiu os dois degraus, empurrou a cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora. Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução.
11°§ A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma panela no chão, e a pedra que o companheiro jogara. Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia pois estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou a janela, pisou, indagador, no soalho gretado, que cedia. A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro.
12°§ Atrás do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto erguido, a doida esticava o rosto para frente, na investigação do rumor.
13°§ Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada.
14°§ Ele encarava-a com interesse. Era simplesmente uma velha. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.
15°§ A criança sorriu, envergonhada, sem saber o que fizesse. Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido.
16°§ Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se timidamente, o confirmavam.
17°§ Talvez pedisse água. A garrafa de barro para água estava no criado-mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber.
18°§ Fazia tudo naturalmente, e nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria ideia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo.
19°§ Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem.
20°§ Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam.
21°§ Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio...
22°§ Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de concordância. Ficou perplexo, indeciso. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa e Prosa. 3 ed. p. 653 a 658. Rio de Janeiro, Companhia José Aguilar, 1973. Texto com adaptações.)
“Fazia tudo naturalmente, e nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida.” (18º parágrafo).
A palavra sublinhada NÃO pode ser substituída, sem que haja modificação no sentido do texto, por:
Questão 3 10737058
CMBH 6° Ano - Português 2011A DOIDA
Carlos Drummond de Andrade
1°§ A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se.
2°§ Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores.
3°§ Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de sessenta anos). Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e desaparecia. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, mantimentos e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável.
4°§ Vinte anos de existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há como mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças.
5°§ E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra.
6°§ Os três verificaram que quase não dava mais gosto apedrejar a casa. As vidraças partidas não se recompunham mais. Em todo caso, o mais velho comandou, e os outros obedeceram na forma do sagrado costume. Pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado.
7°§ O projétil bateu no canudo de lata enegrecido – blem – e veio espatifar uma telha, com estrondo. Um bem-te-vi assustado fugiu da mangueira próxima. A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Então o do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos. E era tudo a mesma paz.
8°§ Aí o terceiro do grupo, em seus onze anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Os companheiros não queriam segui-lo.
9°§ O garoto empurrou o portão: abriu-se. Então, não vivia trancado?... E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso. Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo. Curioso como o jardim se parecia com qualquer um; apenas era mais selvagem. Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois atacar a janela. Chegou perto do animal, que correu. Na perseguição, foi parar rente do chalé, junto à cancelinha azul que fechava a varanda da frente.
10°§ E o garoto subiu os dois degraus, empurrou a cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora. Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução.
11°§ A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma panela no chão, e a pedra que o companheiro jogara. Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia pois estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou a janela, pisou, indagador, no soalho gretado, que cedia. A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro.
12°§ Atrás do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto erguido, a doida esticava o rosto para frente, na investigação do rumor.
13°§ Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada.
14°§ Ele encarava-a com interesse. Era simplesmente uma velha. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.
15°§ A criança sorriu, envergonhada, sem saber o que fizesse. Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido.
16°§ Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se timidamente, o confirmavam.
17°§ Talvez pedisse água. A garrafa de barro para água estava no criado-mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber.
18°§ Fazia tudo naturalmente, e nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria ideia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo.
19°§ Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem.
20°§ Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam.
21°§ Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio...
22°§ Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de concordância. Ficou perplexo, indeciso. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa e Prosa. 3 ed. p. 653 a 658. Rio de Janeiro, Companhia José Aguilar, 1973. Texto com adaptações.)
“... embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável.” (3º parágrafo).
Segundo o trecho, podemos entender que:
Questão 2 10737057
CMBH 6° Ano - Português 2011A DOIDA
Carlos Drummond de Andrade
1°§ A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se.
2°§ Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores.
3°§ Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de sessenta anos). Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e desaparecia. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, mantimentos e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável.
4°§ Vinte anos de existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há como mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças.
5°§ E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra.
6°§ Os três verificaram que quase não dava mais gosto apedrejar a casa. As vidraças partidas não se recompunham mais. Em todo caso, o mais velho comandou, e os outros obedeceram na forma do sagrado costume. Pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado.
7°§ O projétil bateu no canudo de lata enegrecido – blem – e veio espatifar uma telha, com estrondo. Um bem-te-vi assustado fugiu da mangueira próxima. A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Então o do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos. E era tudo a mesma paz.
8°§ Aí o terceiro do grupo, em seus onze anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Os companheiros não queriam segui-lo.
9°§ O garoto empurrou o portão: abriu-se. Então, não vivia trancado?... E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso. Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo. Curioso como o jardim se parecia com qualquer um; apenas era mais selvagem. Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois atacar a janela. Chegou perto do animal, que correu. Na perseguição, foi parar rente do chalé, junto à cancelinha azul que fechava a varanda da frente.
10°§ E o garoto subiu os dois degraus, empurrou a cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora. Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução.
11°§ A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma panela no chão, e a pedra que o companheiro jogara. Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia pois estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou a janela, pisou, indagador, no soalho gretado, que cedia. A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro.
12°§ Atrás do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto erguido, a doida esticava o rosto para frente, na investigação do rumor.
13°§ Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada.
14°§ Ele encarava-a com interesse. Era simplesmente uma velha. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.
15°§ A criança sorriu, envergonhada, sem saber o que fizesse. Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido.
16°§ Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se timidamente, o confirmavam.
17°§ Talvez pedisse água. A garrafa de barro para água estava no criado-mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber.
18°§ Fazia tudo naturalmente, e nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria ideia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo.
19°§ Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem.
20°§ Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam.
21°§ Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio...
22°§ Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de concordância. Ficou perplexo, indeciso. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa e Prosa. 3 ed. p. 653 a 658. Rio de Janeiro, Companhia José Aguilar, 1973. Texto com adaptações.)
A palavra que pode substituir repudiada em “Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé...” (3º parágrafo) sem alterar o sentido original da frase é:
Questão 1 10737056
CMBH 6° Ano - Português 2011A DOIDA
Carlos Drummond de Andrade
1°§ A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se.
2°§ Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores.
3°§ Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de sessenta anos). Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e desaparecia. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, mantimentos e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável.
4°§ Vinte anos de existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há como mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças.
5°§ E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra.
6°§ Os três verificaram que quase não dava mais gosto apedrejar a casa. As vidraças partidas não se recompunham mais. Em todo caso, o mais velho comandou, e os outros obedeceram na forma do sagrado costume. Pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado.
7°§ O projétil bateu no canudo de lata enegrecido – blem – e veio espatifar uma telha, com estrondo. Um bem-te-vi assustado fugiu da mangueira próxima. A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Então o do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos. E era tudo a mesma paz.
8°§ Aí o terceiro do grupo, em seus onze anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Os companheiros não queriam segui-lo.
9°§ O garoto empurrou o portão: abriu-se. Então, não vivia trancado?... E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso. Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo. Curioso como o jardim se parecia com qualquer um; apenas era mais selvagem. Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois atacar a janela. Chegou perto do animal, que correu. Na perseguição, foi parar rente do chalé, junto à cancelinha azul que fechava a varanda da frente.
10°§ E o garoto subiu os dois degraus, empurrou a cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora. Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução.
11°§ A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma panela no chão, e a pedra que o companheiro jogara. Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia pois estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou a janela, pisou, indagador, no soalho gretado, que cedia. A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro.
12°§ Atrás do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto erguido, a doida esticava o rosto para frente, na investigação do rumor.
13°§ Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada.
14°§ Ele encarava-a com interesse. Era simplesmente uma velha. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.
15°§ A criança sorriu, envergonhada, sem saber o que fizesse. Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido.
16°§ Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se timidamente, o confirmavam.
17°§ Talvez pedisse água. A garrafa de barro para água estava no criado-mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber.
18°§ Fazia tudo naturalmente, e nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria ideia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo.
19°§ Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem.
20°§ Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam.
21°§ Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio...
22°§ Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de concordância. Ficou perplexo, indeciso. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa e Prosa. 3 ed. p. 653 a 658. Rio de Janeiro, Companhia José Aguilar, 1973. Texto com adaptações.)
O ditado popular que tem melhor relação com o contexto geral da história é:
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