Questões de EFAF Português
15.488 Questões
Questão 12 10191360
CMBH 1° ano prova de Língua portuguesa 2013TEXTO II
CORAGEM
Cris Guerra
Por favor, não vá embora. Me perdoe. Vou sentir sua falta. Fica comigo. Vamos tentar de novo?
Algumas frases caíram em desuso no mundo dos fortes, o mundo virtual de que somos feitos. Pôr um
ponto final é sempre mais fácil – e não borra a maquiagem.
E com a poeira de aparências construímos outras sentenças mais elegantes. Tudo bem? Tudo
[5] ótimo! (Junto com a resposta, abre-se um sorriso perfeito, até que o outro desapareça e você possa
abraçar de novo a sua dor.) Sorrimos padrão, aplicamos um photoshop na alma e seguimos em frente.
O problema é a frequência desse verniz disfarçando a verdade. Em determinado momento, isso
passa a acontecer na vida a dois – e então perdemos a mão com o outro, não sabemos mais o caminho
para tocá-lo. A vida sob o mesmo teto tem esses perigos. Proteger-se em alguns momentos parece
[10] tarefa impossível.
Eu me lembro de sofrer muito na adolescência. De amores que se acabavam sem que eu
soubesse por quê. Lembro-me de cartas quilométricas escritas a mão com o sangue de um coração em
pedaços. Muitas delas faziam voltar os amores, até que novos desfechos se anunciassem. Ainda trago
no rosto a marca de choros intermináveis que me constituem. Mas de cada amor derramado ficava uma
[15] certeza: eu havia feito de tudo. E sempre segui adiante tendo minha paz lado a lado, mesmo que não
fosse ela a companhia mais desejada. Paixão é bom, amor é lindo. Já a serenidade é como o ar. E a
minha sempre veio.
O que é do outro não me cabe – sua maturação ou seus enganos, selados pela falta que vou fazer
ou pelos aprendizados que finalmente as paredes silenciosas se encarregarão de escrever.
[20] O tempo nunca me faltou, com sua cura e seu alívio, cuja presença era percebida a determinado
momento, sempre seguida de uma surpresa: “E não é que não dói mais?”. E, mesmo quando a morte se
encarregou de interromper um dos maiores e mais intensos amores, as madrugadas me deram papel e
caneta para remar. Teci meus próprios caminhos. Hoje olho para trás e os contemplo: até que eu soube
seguir em frente.
[25] Se cedo ou tarde a paz vem me fazer companhia, é porque antes me vem a coragem, esta de me
abandonar e dizer: amo muito.
Nunca deixei para trás uma palavra não dita. É puro oxigênio a sensação de ter feito tudo o que
estava ao meu alcance.
(Revista VEJA BH. Edição ano 2, 20 maio 2013. p.82)
Encontram apoio no texto as seguintes alternativas, EXCETO:
Questão 11 10191347
CMBH 1° ano prova de Língua portuguesa 2013TEXTO II
CORAGEM
Cris Guerra
Por favor, não vá embora. Me perdoe. Vou sentir sua falta. Fica comigo. Vamos tentar de novo?
Algumas frases caíram em desuso no mundo dos fortes, o mundo virtual de que somos feitos. Pôr um
ponto final é sempre mais fácil – e não borra a maquiagem.
E com a poeira de aparências construímos outras sentenças mais elegantes. Tudo bem? Tudo
[5] ótimo! (Junto com a resposta, abre-se um sorriso perfeito, até que o outro desapareça e você possa
abraçar de novo a sua dor.) Sorrimos padrão, aplicamos um photoshop na alma e seguimos em frente.
O problema é a frequência desse verniz disfarçando a verdade. Em determinado momento, isso
passa a acontecer na vida a dois – e então perdemos a mão com o outro, não sabemos mais o caminho
para tocá-lo. A vida sob o mesmo teto tem esses perigos. Proteger-se em alguns momentos parece
[10] tarefa impossível.
Eu me lembro de sofrer muito na adolescência. De amores que se acabavam sem que eu
soubesse por quê. Lembro-me de cartas quilométricas escritas a mão com o sangue de um coração em
pedaços. Muitas delas faziam voltar os amores, até que novos desfechos se anunciassem. Ainda trago
no rosto a marca de choros intermináveis que me constituem. Mas de cada amor derramado ficava uma
[15] certeza: eu havia feito de tudo. E sempre segui adiante tendo minha paz lado a lado, mesmo que não
fosse ela a companhia mais desejada. Paixão é bom, amor é lindo. Já a serenidade é como o ar. E a
minha sempre veio.
O que é do outro não me cabe – sua maturação ou seus enganos, selados pela falta que vou fazer
ou pelos aprendizados que finalmente as paredes silenciosas se encarregarão de escrever.
[20] O tempo nunca me faltou, com sua cura e seu alívio, cuja presença era percebida a determinado
momento, sempre seguida de uma surpresa: “E não é que não dói mais?”. E, mesmo quando a morte se
encarregou de interromper um dos maiores e mais intensos amores, as madrugadas me deram papel e
caneta para remar. Teci meus próprios caminhos. Hoje olho para trás e os contemplo: até que eu soube
seguir em frente.
[25] Se cedo ou tarde a paz vem me fazer companhia, é porque antes me vem a coragem, esta de me
abandonar e dizer: amo muito.
Nunca deixei para trás uma palavra não dita. É puro oxigênio a sensação de ter feito tudo o que
estava ao meu alcance.
(Revista VEJA BH. Edição ano 2, 20 maio 2013. p.82)
São recursos para reaver a perda de um amor, EXCETO:
Questão 10 10191345
CMBH 1° ano prova de Língua portuguesa 2013TEXTO I
ADOLESCÊNCIA
Já era outono e nós tínhamos o espírito suave da primavera. Aos 15, 16 anos, podíamos ser o que
a nossa imaginação alcançasse. A realidade era intangível e desnecessária. Era uma imposição contra a
qual nos rebelávamos. Era uma interdição ao nosso sonho. Mais do que uma interdição, era o fim do
nosso sonho. Na realidade, não há grandes paixões, não somos gênios, não somos heróis, nem mártires,
[5] nem santos. Na realidade, somos reduzidos a adolescentes espinhentos, a quem ninguém dá ouvidos. A
realidade é o princípio da morte.
Nós, adolescentes, morríamos a todo momento, sufocados pela realidade. E éramos sepultados
no chão duro da realidade. Mas tínhamos mais vidas que o gato. Sete vezes sete vidas. E logo
ressuscitávamos, fugíamos das grades da realidade, rasgávamos a camisa-de-força da realidade, e
[10] mergulhávamos outra vez no sonho. E com as nossas sete vezes sete vidas, nos tornávamos James
Dean, Pelé, Napoleão, Beethoven, Jesus Cristo, Dostoievski, e tantos outros, que surgiam e se
apagavam tão depressa que não deixavam nenhuma luz no mundo.
E fui tantos e quantos que perdi a conta. Qualquer romance eu era dois, três. Qualquer filme,
mais dois ou três. Em qualquer festa, eu era um ou dois. Fui tantos! E fui me construindo com esses
[15] cacos que a minha adolescência juntava, com esses retalhos de alma, dessa poeira que se acumula com
o tempo. E fui me fazendo com o que sobrava dos outros, com o que, sem consciência, roubava dos
outros. Não é que eu viva no passado, é o passado que está em mim.
Mesmo sendo fruto desta colagem, ela foi se misturando de uma maneira singular. Havia mais
resignação no lado direito, mais revolta no esquerdo, mais firmeza no caráter, mais incertezas quanto
[20] ao certo. Mais convicção quanto à arte, menos quanto ao amor. Que alegria se eu conseguisse ser eu!
Certamente, seria outro, outra síntese de outros. E mesmo entre nós, adolescentes, uns eram
ídolos de outros. Por pouco tempo, é verdade. Mas em rodízio. Algum, capaz de um ato de coragem,
atraía os olhares de admiração dos mais medrosos. O que arranjava namorada era invejado, copiava-se
até seu penteado. Andava-se com pente no bolso de trás e, no bolsinho de moedas, espelhinho oval,
[25] com foto de mulher nua, ou escudo do time preferido. Servia para pentear cabelo, espremer cravo e pôr
sobre o sapato enquanto as meninas passavam de saia – embora nunca tenha visto esse uso. Eu não me
encontrava em lugar algum. Parecia o fantasma de um cão adestrado. Ia para um lado e outro, sempre
seguindo a decisão de alguém, na solidão dos que vão atrás.
As garotas não sabem o que é adolescência. Elas saltam de uma etapa para outra, sem ninguém
[30] perceber. De repente, pronto: eis a mulher! Nariz empinado, muda a maneira de vestir e de conversar.
E isso inclui ignorar até os irmãos. Quando se é um adolescente, nenhuma garota tem a sua idade. Ou
melhor, ninguém tem a sua idade. Você é a única criatura no mundo que ninguém entende, ninguém
respeita, em que ninguém confia, à qual ninguém dá dinheiro e, à primeira coisa errada que aconteça,
você é o suspeito de ser o autor.
[35] Que fase maravilhosa, a adolescência! Você próprio está se construindo. Um ser em obras, com
andaimes, latas de tinta, pincéis. Tudo é um vir-a-ser. Vida, profissão, amor, família, tudo é futuro. Por
isso, pode voar em sonhos e mergulhar em delírios. Em sonhos e delírios, você é o que quiser. Se
ninguém o entende e reclama de você, fica na sua. Mas bem na sua mesmo. Esconda-se naquele lugar
onde ninguém vai achá-lo, nem mesmo você sabe onde é direito. Vai para lá no automático. E fica em
[40] silêncio consigo mesmo. Afinal, nem você mesmo se entende. Mas os que se queixam de você também
não se entendem entre si.
Sempre se diz que a adolescência é a fase mais difícil, porque se deixa de ser uma coisa e ainda
não se é outra. Não se deu assim comigo. Se me fosse dado voltar no tempo, eu voltaria para a
adolescência. Foi o período mais alegre da minha vida. Eu tinha tão pouco e precisava de tão menos,
[45] que do nada havia sobra. Era a aventura e a alegria, a curiosidade e as descobertas, a gratuidade de uma
vida que ainda não era. Vivi mais perto de mim, com mais paz, e mais perto de ser feliz. Para quem
não tem nada, menos que pouco pode ser o bastante. Ou até demais.
(ARAÚJO Alcione. Urgente é a Vida. 1.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. p.47)
Os mecanismos coesivos têm a função de criar vínculos entre as palavras, entre as orações e entre diferentes partes de um mesmo texto. São muito usados, também, para eliminar as repetições de vocábulos.
Observe o trecho abaixo e assinale a opção cuja reescrita esteja adequada, mantendo-se a coesão e o sentido original.
“Nós, adolescentes, morríamos a todo momento, sufocados pela realidade. E éramos sepultados no chão duro da realidade. [...] E logo ressuscitávamos, fugíamos das grades da realidade, rasgávamos a camisa-deforça da realidade, e mergulhávamos outra vez no sonho.” (l. 7 – 10) (Grifos nossos)
Questão 9 10191343
CMBH 1° ano prova de Língua portuguesa 2013TEXTO I
ADOLESCÊNCIA
Já era outono e nós tínhamos o espírito suave da primavera. Aos 15, 16 anos, podíamos ser o que
a nossa imaginação alcançasse. A realidade era intangível e desnecessária. Era uma imposição contra a
qual nos rebelávamos. Era uma interdição ao nosso sonho. Mais do que uma interdição, era o fim do
nosso sonho. Na realidade, não há grandes paixões, não somos gênios, não somos heróis, nem mártires,
[5] nem santos. Na realidade, somos reduzidos a adolescentes espinhentos, a quem ninguém dá ouvidos. A
realidade é o princípio da morte.
Nós, adolescentes, morríamos a todo momento, sufocados pela realidade. E éramos sepultados
no chão duro da realidade. Mas tínhamos mais vidas que o gato. Sete vezes sete vidas. E logo
ressuscitávamos, fugíamos das grades da realidade, rasgávamos a camisa-de-força da realidade, e
[10] mergulhávamos outra vez no sonho. E com as nossas sete vezes sete vidas, nos tornávamos James
Dean, Pelé, Napoleão, Beethoven, Jesus Cristo, Dostoievski, e tantos outros, que surgiam e se
apagavam tão depressa que não deixavam nenhuma luz no mundo.
E fui tantos e quantos que perdi a conta. Qualquer romance eu era dois, três. Qualquer filme,
mais dois ou três. Em qualquer festa, eu era um ou dois. Fui tantos! E fui me construindo com esses
[15] cacos que a minha adolescência juntava, com esses retalhos de alma, dessa poeira que se acumula com
o tempo. E fui me fazendo com o que sobrava dos outros, com o que, sem consciência, roubava dos
outros. Não é que eu viva no passado, é o passado que está em mim.
Mesmo sendo fruto desta colagem, ela foi se misturando de uma maneira singular. Havia mais
resignação no lado direito, mais revolta no esquerdo, mais firmeza no caráter, mais incertezas quanto
[20] ao certo. Mais convicção quanto à arte, menos quanto ao amor. Que alegria se eu conseguisse ser eu!
Certamente, seria outro, outra síntese de outros. E mesmo entre nós, adolescentes, uns eram
ídolos de outros. Por pouco tempo, é verdade. Mas em rodízio. Algum, capaz de um ato de coragem,
atraía os olhares de admiração dos mais medrosos. O que arranjava namorada era invejado, copiava-se
até seu penteado. Andava-se com pente no bolso de trás e, no bolsinho de moedas, espelhinho oval,
[25] com foto de mulher nua, ou escudo do time preferido. Servia para pentear cabelo, espremer cravo e pôr
sobre o sapato enquanto as meninas passavam de saia – embora nunca tenha visto esse uso. Eu não me
encontrava em lugar algum. Parecia o fantasma de um cão adestrado. Ia para um lado e outro, sempre
seguindo a decisão de alguém, na solidão dos que vão atrás.
As garotas não sabem o que é adolescência. Elas saltam de uma etapa para outra, sem ninguém
[30] perceber. De repente, pronto: eis a mulher! Nariz empinado, muda a maneira de vestir e de conversar.
E isso inclui ignorar até os irmãos. Quando se é um adolescente, nenhuma garota tem a sua idade. Ou
melhor, ninguém tem a sua idade. Você é a única criatura no mundo que ninguém entende, ninguém
respeita, em que ninguém confia, à qual ninguém dá dinheiro e, à primeira coisa errada que aconteça,
você é o suspeito de ser o autor.
[35] Que fase maravilhosa, a adolescência! Você próprio está se construindo. Um ser em obras, com
andaimes, latas de tinta, pincéis. Tudo é um vir-a-ser. Vida, profissão, amor, família, tudo é futuro. Por
isso, pode voar em sonhos e mergulhar em delírios. Em sonhos e delírios, você é o que quiser. Se
ninguém o entende e reclama de você, fica na sua. Mas bem na sua mesmo. Esconda-se naquele lugar
onde ninguém vai achá-lo, nem mesmo você sabe onde é direito. Vai para lá no automático. E fica em
[40] silêncio consigo mesmo. Afinal, nem você mesmo se entende. Mas os que se queixam de você também
não se entendem entre si.
Sempre se diz que a adolescência é a fase mais difícil, porque se deixa de ser uma coisa e ainda
não se é outra. Não se deu assim comigo. Se me fosse dado voltar no tempo, eu voltaria para a
adolescência. Foi o período mais alegre da minha vida. Eu tinha tão pouco e precisava de tão menos,
[45] que do nada havia sobra. Era a aventura e a alegria, a curiosidade e as descobertas, a gratuidade de uma
vida que ainda não era. Vivi mais perto de mim, com mais paz, e mais perto de ser feliz. Para quem
não tem nada, menos que pouco pode ser o bastante. Ou até demais.
(ARAÚJO Alcione. Urgente é a Vida. 1.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. p.47)
Sabe-se que FATO é diferente de OPINIÃO.
Assinale o trecho em que se encontra caracterizado um FATO.
Questão 8 10191336
CMBH 1° ano prova de Língua portuguesa 2013TEXTO I
ADOLESCÊNCIA
Já era outono e nós tínhamos o espírito suave da primavera. Aos 15, 16 anos, podíamos ser o que
a nossa imaginação alcançasse. A realidade era intangível e desnecessária. Era uma imposição contra a
qual nos rebelávamos. Era uma interdição ao nosso sonho. Mais do que uma interdição, era o fim do
nosso sonho. Na realidade, não há grandes paixões, não somos gênios, não somos heróis, nem mártires,
[5] nem santos. Na realidade, somos reduzidos a adolescentes espinhentos, a quem ninguém dá ouvidos. A
realidade é o princípio da morte.
Nós, adolescentes, morríamos a todo momento, sufocados pela realidade. E éramos sepultados
no chão duro da realidade. Mas tínhamos mais vidas que o gato. Sete vezes sete vidas. E logo
ressuscitávamos, fugíamos das grades da realidade, rasgávamos a camisa-de-força da realidade, e
[10] mergulhávamos outra vez no sonho. E com as nossas sete vezes sete vidas, nos tornávamos James
Dean, Pelé, Napoleão, Beethoven, Jesus Cristo, Dostoievski, e tantos outros, que surgiam e se
apagavam tão depressa que não deixavam nenhuma luz no mundo.
E fui tantos e quantos que perdi a conta. Qualquer romance eu era dois, três. Qualquer filme,
mais dois ou três. Em qualquer festa, eu era um ou dois. Fui tantos! E fui me construindo com esses
[15] cacos que a minha adolescência juntava, com esses retalhos de alma, dessa poeira que se acumula com
o tempo. E fui me fazendo com o que sobrava dos outros, com o que, sem consciência, roubava dos
outros. Não é que eu viva no passado, é o passado que está em mim.
Mesmo sendo fruto desta colagem, ela foi se misturando de uma maneira singular. Havia mais
resignação no lado direito, mais revolta no esquerdo, mais firmeza no caráter, mais incertezas quanto
[20] ao certo. Mais convicção quanto à arte, menos quanto ao amor. Que alegria se eu conseguisse ser eu!
Certamente, seria outro, outra síntese de outros. E mesmo entre nós, adolescentes, uns eram
ídolos de outros. Por pouco tempo, é verdade. Mas em rodízio. Algum, capaz de um ato de coragem,
atraía os olhares de admiração dos mais medrosos. O que arranjava namorada era invejado, copiava-se
até seu penteado. Andava-se com pente no bolso de trás e, no bolsinho de moedas, espelhinho oval,
[25] com foto de mulher nua, ou escudo do time preferido. Servia para pentear cabelo, espremer cravo e pôr
sobre o sapato enquanto as meninas passavam de saia – embora nunca tenha visto esse uso. Eu não me
encontrava em lugar algum. Parecia o fantasma de um cão adestrado. Ia para um lado e outro, sempre
seguindo a decisão de alguém, na solidão dos que vão atrás.
As garotas não sabem o que é adolescência. Elas saltam de uma etapa para outra, sem ninguém
[30] perceber. De repente, pronto: eis a mulher! Nariz empinado, muda a maneira de vestir e de conversar.
E isso inclui ignorar até os irmãos. Quando se é um adolescente, nenhuma garota tem a sua idade. Ou
melhor, ninguém tem a sua idade. Você é a única criatura no mundo que ninguém entende, ninguém
respeita, em que ninguém confia, à qual ninguém dá dinheiro e, à primeira coisa errada que aconteça,
você é o suspeito de ser o autor.
[35] Que fase maravilhosa, a adolescência! Você próprio está se construindo. Um ser em obras, com
andaimes, latas de tinta, pincéis. Tudo é um vir-a-ser. Vida, profissão, amor, família, tudo é futuro. Por
isso, pode voar em sonhos e mergulhar em delírios. Em sonhos e delírios, você é o que quiser. Se
ninguém o entende e reclama de você, fica na sua. Mas bem na sua mesmo. Esconda-se naquele lugar
onde ninguém vai achá-lo, nem mesmo você sabe onde é direito. Vai para lá no automático. E fica em
[40] silêncio consigo mesmo. Afinal, nem você mesmo se entende. Mas os que se queixam de você também
não se entendem entre si.
Sempre se diz que a adolescência é a fase mais difícil, porque se deixa de ser uma coisa e ainda
não se é outra. Não se deu assim comigo. Se me fosse dado voltar no tempo, eu voltaria para a
adolescência. Foi o período mais alegre da minha vida. Eu tinha tão pouco e precisava de tão menos,
[45] que do nada havia sobra. Era a aventura e a alegria, a curiosidade e as descobertas, a gratuidade de uma
vida que ainda não era. Vivi mais perto de mim, com mais paz, e mais perto de ser feliz. Para quem
não tem nada, menos que pouco pode ser o bastante. Ou até demais.
(ARAÚJO Alcione. Urgente é a Vida. 1.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. p.47)
Todos os termos em destaque possuem a mesma função sintática, exceto em:
Questão 6 10191330
CMBH 1° ano prova de Língua portuguesa 2013TEXTO I
ADOLESCÊNCIA
Já era outono e nós tínhamos o espírito suave da primavera. Aos 15, 16 anos, podíamos ser o que
a nossa imaginação alcançasse. A realidade era intangível e desnecessária. Era uma imposição contra a
qual nos rebelávamos. Era uma interdição ao nosso sonho. Mais do que uma interdição, era o fim do
nosso sonho. Na realidade, não há grandes paixões, não somos gênios, não somos heróis, nem mártires,
[5] nem santos. Na realidade, somos reduzidos a adolescentes espinhentos, a quem ninguém dá ouvidos. A
realidade é o princípio da morte.
Nós, adolescentes, morríamos a todo momento, sufocados pela realidade. E éramos sepultados
no chão duro da realidade. Mas tínhamos mais vidas que o gato. Sete vezes sete vidas. E logo
ressuscitávamos, fugíamos das grades da realidade, rasgávamos a camisa-de-força da realidade, e
[10] mergulhávamos outra vez no sonho. E com as nossas sete vezes sete vidas, nos tornávamos James
Dean, Pelé, Napoleão, Beethoven, Jesus Cristo, Dostoievski, e tantos outros, que surgiam e se
apagavam tão depressa que não deixavam nenhuma luz no mundo.
E fui tantos e quantos que perdi a conta. Qualquer romance eu era dois, três. Qualquer filme,
mais dois ou três. Em qualquer festa, eu era um ou dois. Fui tantos! E fui me construindo com esses
[15] cacos que a minha adolescência juntava, com esses retalhos de alma, dessa poeira que se acumula com
o tempo. E fui me fazendo com o que sobrava dos outros, com o que, sem consciência, roubava dos
outros. Não é que eu viva no passado, é o passado que está em mim.
Mesmo sendo fruto desta colagem, ela foi se misturando de uma maneira singular. Havia mais
resignação no lado direito, mais revolta no esquerdo, mais firmeza no caráter, mais incertezas quanto
[20] ao certo. Mais convicção quanto à arte, menos quanto ao amor. Que alegria se eu conseguisse ser eu!
Certamente, seria outro, outra síntese de outros. E mesmo entre nós, adolescentes, uns eram
ídolos de outros. Por pouco tempo, é verdade. Mas em rodízio. Algum, capaz de um ato de coragem,
atraía os olhares de admiração dos mais medrosos. O que arranjava namorada era invejado, copiava-se
até seu penteado. Andava-se com pente no bolso de trás e, no bolsinho de moedas, espelhinho oval,
[25] com foto de mulher nua, ou escudo do time preferido. Servia para pentear cabelo, espremer cravo e pôr
sobre o sapato enquanto as meninas passavam de saia – embora nunca tenha visto esse uso. Eu não me
encontrava em lugar algum. Parecia o fantasma de um cão adestrado. Ia para um lado e outro, sempre
seguindo a decisão de alguém, na solidão dos que vão atrás.
As garotas não sabem o que é adolescência. Elas saltam de uma etapa para outra, sem ninguém
[30] perceber. De repente, pronto: eis a mulher! Nariz empinado, muda a maneira de vestir e de conversar.
E isso inclui ignorar até os irmãos. Quando se é um adolescente, nenhuma garota tem a sua idade. Ou
melhor, ninguém tem a sua idade. Você é a única criatura no mundo que ninguém entende, ninguém
respeita, em que ninguém confia, à qual ninguém dá dinheiro e, à primeira coisa errada que aconteça,
você é o suspeito de ser o autor.
[35] Que fase maravilhosa, a adolescência! Você próprio está se construindo. Um ser em obras, com
andaimes, latas de tinta, pincéis. Tudo é um vir-a-ser. Vida, profissão, amor, família, tudo é futuro. Por
isso, pode voar em sonhos e mergulhar em delírios. Em sonhos e delírios, você é o que quiser. Se
ninguém o entende e reclama de você, fica na sua. Mas bem na sua mesmo. Esconda-se naquele lugar
onde ninguém vai achá-lo, nem mesmo você sabe onde é direito. Vai para lá no automático. E fica em
[40] silêncio consigo mesmo. Afinal, nem você mesmo se entende. Mas os que se queixam de você também
não se entendem entre si.
Sempre se diz que a adolescência é a fase mais difícil, porque se deixa de ser uma coisa e ainda
não se é outra. Não se deu assim comigo. Se me fosse dado voltar no tempo, eu voltaria para a
adolescência. Foi o período mais alegre da minha vida. Eu tinha tão pouco e precisava de tão menos,
[45] que do nada havia sobra. Era a aventura e a alegria, a curiosidade e as descobertas, a gratuidade de uma
vida que ainda não era. Vivi mais perto de mim, com mais paz, e mais perto de ser feliz. Para quem
não tem nada, menos que pouco pode ser o bastante. Ou até demais.
(ARAÚJO Alcione. Urgente é a Vida. 1.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. p.47)
Considerando o contexto e os aspectos morfológicos e sintáticos dos períodos, só NÃO está totalmente correto o que se afirma em:
06
![[Marketing] Questao Topo - deslogado](https://storage.estuda.com.br/banners/0_6b7ebee90b03af1c560c73bb8bcce34a_banner_deslogado_70_dias.png)