Questões de Sociologia
6.493 Questões
Questão 2 100286
UNISC Medicina 2014/1Cultura
Darcy Ribeiro
Além dos seres vivos e da matéria cósmica, existem, também, coisas
culturais, muitíssimo mais complicadas. Chama-se cultura tudo o que é feito pelos
homens, ou resulta do trabalho deles e de seus pensamentos. Por exemplo, uma
cadeira está na cara que é cultural porque foi feita por alguém. Mesmo o
banquinho mais vagabundo, que mal se põe em pé, é uma coisa cultural. É cultura,
também, porque feita pelos homens, uma galinha. Sem a intervenção humana, que
criou os bichos domésticos, as galinhas, as vacas, os porcos, os cabritos, as cabras,
não existiriam. Só haveria animais selvagens.
A minhoca criada para produzir humo é cultural, eu compreendo. Mas a
lombriga que você tem na barriga é apenas um ser biológico. Ou será, ela também,
um ser cultural? Cultural não é, porque ninguém cria lombrigas. Elas é que se
criam e se reproduzem nas suas tripas.
Uma casa qualquer, ainda que material, é claramente um produto cultural,
porque é feita pelos homens. Amesma coisa se pode dizer de um prato de sopa, de
um picolé ou de um diário. Mas estas são coisas de cultura material, que se pode
ver, medir, pesar.
Há, também, para complicar, as coisas da cultura imaterial, impropriamente
chamadas de espiritual - muitíssimo mais complicadas. Afala, por exemplo, que
se revela quando a gente conversa, e que existe independentemente de qualquer
boca falante, é criação cultural. Aliás, a mais importante. Sem a fala, os homens
seriam uns macacos, porque não poderiam se entender uns com os outros, para
acumular conhecimento e mudar o mundo como temos mudado.
A fala está aí, onde existe gente, para qualquer um aprender. Aprende-se,
geralmente, a da mãe. Se ela é uma índia, aprende-se a falar a fala dos índios, dos
Xavantes, por exemplo. Se ela é uma carioca, professora, moradora da Tijuca, a
gente aprende aquele português lá dos tijucanos. Mas, se você trocar a filhinha da
índia pela filhinha da professora, e criar, bem ali na praça Saens Peña, ela vai
crescer como uma menina qualquer, tijucana, dali mesmo. E vice-versa, o mesmo
ocorre se a filha da professora for levada para a aldeia Xavante: ela vai crescer lá,
como uma xavantinha perfeita - falando a língua dos Xavantes e xavanteando
muito bem, sem nem saber que há tijucanos.
Além da fala, temos as crenças, as artes, que são criações culturais, porque
inventadas pelos homens e transmitidas uns aos outros através de gerações. Elas
se tornam visíveis, se manifestam, através de criações artísticas, ou de ritos e
práticas - o batizado, o casamento, a missa - em que a gente vê os conceitos e as
ideias religiosas ou artísticas se realizarem. Essa separação de coisas cósmicas,
coisas vivas, coisas culturais, ajuda a gente de alguma forma? Sei não. Se não
ajuda, diverte. É melhor que decorar um dicionário, ou aprender datas. Você não
acha?
RIBEIRO, Darcy. Noções de Coisas. São Paulo: FTD, 2000, p. 34.
Analise as seguintes afirmativas.
I- Animais domésticos são todos aqueles retirados de seu habitat natural para representarem as manifestações culturais do homem.
II- Cultura é toda ação e pensamento do homem que transformam a natureza de alguma forma.
III- Enquanto um produto cultural material é aquele que podemos ver, medir ou pesar, um produto cultural imaterial é aquele que independe do homem.
IV- A fala é a manifestação cultural mais importante porque sem ela não haveria humanidade.
Assinale a alternativa correta.
Questão 35 100259
UNISC Medicina 2014/2“ O etnocentrismo, de fato, é um fenômeno universal. É comum a crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade, ou mesmo a sua própria expressão. As autodenominações de diferentes grupos refletem este ponto de vista. Os Cheyene, índios das planícies norteamericanas, se autodenominavam “os entes humanos”; os Akuáwa, grupo Tupi do Sul do Pará, consideram-se “os homens”; da mesma forma os Navajo se intitulavam o “povo”. Os australianos chamavam as roupas de “peles de fantasmas”, pois não acreditavam que os ingleses fossem parte da humanidade; (...) É comum assim a crença no povo eleito, predestinado por seres sobrenaturais para ser superior aos demais. Tais crenças contêm o germe de racismo, da intolerância, e, frequentemente, são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros.”
LARAIA, R. B. Cultura Um Conceito Antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, p.75.
A partir da citação, podemos dizer que é correto afirmar que o etnocentrismo
I- tem como pressuposto a recusa em interferir e modificar os costumes de grupos sociais ou de um povo.
II- é uma ideologia social que toma os referenciais culturais de sua sociedade para pensar, julgar e avaliar as demais sociedades ou grupos com o pressuposto de superioridade cultural.
III- é um fenômeno universal que está presente somente nas sociedades ocidentais.
IV- não promove a classificação das culturas de forma hierárquica.
Assinale a alternativa correta.
Questão 5 100223
UNISC Medicina 2014/2O feminino e o feminismo
O feminismo atual questiona precisamente a forma tradicional de desempenho do
papel de esposa e mãe. Não se trata mais de conquistar direitos formais mas de mudar a
forma de relacionamento entre homens e mulheres, em primeiro lugar na família, mas
também no trabalho e na política. As feministas, de um modo geral, não aceitam a divisão
tradicional de trabalho entre sexos, pela qual cabem à mulher todas as tarefas domésticas,
deixando ao homem o relacionamento com o mundo externo ao lar. O fato de a mulher ser
mãe não justifica que ela assuma todos os encargos da procriação, o que acarreta sua
dependência do homem, que passa a ser o único a “trazer dinheiro para casa”. É esta
dependência que forma a base da subordinação da mulher, no plano econômico em primeiro
lugar e nos demais planos em consequência.
Quando a mulher também realiza trabalho remunerado, isso, em geral, não constitui
motivo para que ela deixe de desempenhar suas funções domésticas, acarretando-lhe o
“duplo encargo” de cuidar da produção de mercadorias (na empresa) e da reprodução da
força de trabalho (no domicílio). Daí a assalariada com encargos de família sentir-se
duplamente explorada: pelo patrão e pelo marido. A discriminação salarial contra a mulher
tem a mesma base: sendo considerada uma trabalhadora “complementar” (ao seu pai ou
marido), ela é socialmente coagida a aceitar pagamento inferior por um trabalho que, por
isso mesmo, é rapidamente abandonado pelos homens, que almejam (e geralmente obtêm)
ganhos mais altos.
Embora se proponha objetivos concretos, o feminismo atual apresenta menos um
programa definido de reivindicações do que uma visão renovada do que poderia e talvez
deveria ser uma sociedade na qual indivíduos de ambos os sexos pudessem conviver em
condições de igualdade. Assim, Betty Mindlin Lafer se pergunta: “o que aconteceria se
homens e mulheres dividissem igualmente todas as tarefas, ambos dedicando a metade do
dia a filhos e casa e a outra metade ao trabalho?” É claro que toda a sociedade teria que se
reorganizar para que isso fosse possível; hoje, em muito poucos empregos as pessoas podem
limitar o número de horas trabalhadas. E para que os homens pudessem encurtar o dia de
trabalho fora de casa, seria preciso que as mulheres estivessem mais preparadas para os
mesmos empregos, recebessem mais instruções e facilidades para se cultivar. Então homem
e mulher teriam a vantagem de ter a visão do outro, de repartir a responsabilidade econômica
e o serviço doméstico, tendo os dois o prazer de estar com as crianças.
O que aconteceria se houvesse alternativas à vida em família, e que outras formas de
viver se poderiam imaginar: comunidades, cuidado coletivo de crianças, mais escolas ou
creches, cooperativas para o trabalho doméstico...? Qual a educação ideal para meninos e
meninas, já que a mulher é, de certa forma, quem transmite os conceitos de masculino e
feminino e, sem querer, pode perpetuar justamente o que deseja evitar?
Estas indagações revelam uma faceta do feminismo atual, que ele compartilha com
outros movimentos de libertação, como os de negros e homossexuais. Trata-se, antes mesmo
de tentar mudar as relações sociais objetivas, de encontrar uma nova identidade para a
mulher. Para que a mulher possa se libertar da sujeição que o comportamento dos outros —
os homens — lhe impõe, é preciso que ela mesma se liberte antes dos valores, atitudes e
preconceitos que desde criança lhe foram introjetados. O movimento feminista começa,
portanto, sua ação junto às próprias mulheres, propondo-lhes uma outra visão de si mesmas,
que supere os sentimentos de autodepreciação, que uma eventual recusa aos papéis
“femininos” não deixa de acarretar.
O feminino e o feminismo
SINGER, Paul. O feminino e o feminismo. In: SINGER, P. e BRANT, V (orgs). São Paulo: o povo em movimento, Vozes/CEBRAP, 1983.
Nas linhas 17 e 18, a expressão por isso mesmo
I - refere-se ao fato de o trabalho desenvolvido pela mulher ser pouco valorizado e mal remunerado.
II - foi empregada pelo fato de a mulher ser coagida e, por essa razão, os homens não disputam o mesmo segmento.
III - se refere à dupla jornada de trabalho.
Assinale a alternativa correta.
Questão 45 99979
EBMSP Medicina 2014/1O encéfalo humano – que reúne dentro da caixa craniana, o cérebro, o cerebelo e o tronco – é, até prova em contrário, o pedaço de matéria organizada mais complexa em todo o universo conhecido. Muitos consideram o encéfalo uma espécie de apogeu da evolução da vida, mas não deixa também de ser um triunfo da história da matéria que compõe o próprio Universo. Quase todos os átomos da Tabela Periódica foram gerados por nucleossíntese atômica no interior de antigas estrelas que depois explodiram como supernovas, liberando essa matéria que, então, pôde reorganizar-se em novas estrelas – agora, com planetas e moléculas de todo tipo. Sobre esse substrato material, a vida surgiu e se desenvolveu, pelo menos na Terra. Não podemos resistir à poética observação do astrônomo e divulgador da ciência Carl Sagan quando explica que somos basicamente a matéria das estrelas... contemplando a si mesma!
O tecido nervoso difere de todos os outros na medida em que, nele, a diferenciação é a regra.
A mente humana é um amálgama das diversas funções cognitivas do encéfalo que, além das sensações e movimentos, envolve atenção, processamento visuoespacial, funções executivas, emoções, sem se esquecer da memória e da linguagem. Homo sapiens adquiriu essas capacidades ao longo da evolução por seleção natural.
Uma preocupação crescente nos últimos anos é saber como o encéfalo humano está lidando com o novo ambiente onipresente das tecnologias digitais de comunicação – que, muito embora tenha revolucionado nossas vidas, cada vez consome mais tempo e envolvimento das pessoas, pelo menos daquelas que têm condições financeiras de acessá-lo (a maioria da humanidade nem sonha com isso). O ambiente de hoje não tem precedentes e, entre os principais responsáveis pelas mudanças comportamentais, são apontadas a internet – especialmente as redes sociais – e os videogames interativos. Embora haja aspectos positivos nesses recursos, suas limitações ficam exacerbadas com o uso prolongado, que também promove o estresse, ou mesmo, a dependência (análoga ao efeito de drogas). O chamado Transtorno de Dependência da Internet pode integrar a próxima edição do Manual dos Transtornos Psiquiátricos (DSM-5).
QUILLFELDT, J. O encéfalo e a era digital. Scientific American Brasil. São Paulo: Duetto, nº 128, ano 11, jan. 2013, p. 22. Adaptado.
São consequências dos fatos destacados no texto
Questão 1 99176
FCM PB Medicina 2014/1TEXTO – Saúde e paz: a busca por um discurso mobilizador
Ao se contemplar o panorama histórico do enfrentamento às violências na sociedade brasileira não é difícil constatar que um dos nós críticos continua a ser a ausência de um discurso capaz de aglutinar vontades políticas e mobilizar compromissos e esforços individuais, coletivos e institucionais. As propostas estritamente focadas em atuação policial, arcabouço legal e/ou aparato prisional ainda hoje predominam no senso comum, tendo por premissa a demonização do perpetrador de violência — com especial veemência se o mesmo for pobre, preto ou da periferia. Essa perspectiva fundamenta um discurso no qual não existe qualquer espaço para a ação cidadã, o diálogo social ou a participação coletiva.
A primeira proposição é que tal discurso deve enunciar o que se almeja, não se limitando apenas a negar o indesejado. Em outras palavras, deve focalizar a paz (o que se quer), ao invés da violência (o que não se quer). A rejeição ou negação do indesejado, por mais intensa que seja, é incapaz de gerar o desejado. A ausência de violência não implica surgimento da paz. Quem quer a paz? Quem não quer a paz? Se fizermos essas perguntas a muitas pessoas, constataremos que todas afirmarão desejar a paz. Contraditoriamente, se todos dizem querer a paz, por que ela é tão difícil de ser alcançada?
As respostas são muitas. É possível perguntar se há sinceridade entre os que afirmam querer a paz e seus múltiplos entendimentos. Uma situação ditatorial pode ser considerada mais pacífica do que um ambiente democrático, no qual as divergências são visíveis? Além disso, geralmente a violência só é reconhecida em suas expressões físicas ou criminosas — portanto, se não houver agressões corporais ou crimes, considerar-se-á que a paz já tenha sido alcançada, mesmo que persistam situações como miséria, fome ou racismo.
Outro motivo que pode ser apontado é que há certa acomodação dos que desejam a paz. Além disso, há, ainda, a crença de que o ser humano é inerentemente violento. Se acreditamos nisso, como é possível nos engajarmos, sinceramente, na construção da paz? Temos, assim, algumas assertivas que podem ocupar a centralidade do discurso: a violência não é inerente à espécie humana; consequentemente, ela pode ser prevenida e superada. A violência tanto quanto a paz são comportamentos aprendidos e valores socialmente construídos e possuidores de uma dimensão ética e moral. Cooperação, diálogo, solidariedade, diversidade, generosidade e empatia favorecem a construção de uma cultura de paz. E isso tem a ver com saúde.
O discurso da paz deve ser centrado na “promoção de uma cultura de paz”, da mesma forma que a Saúde Pública prioriza a “promoção da saúde”. Entendemos que a adoção de um discurso de promoção da cultura de paz não significa o abandono das ações de prevenção da violência. Trata-se de reconhecer o lugar epistemológico de cada um — a cultura de paz tem o papel da utopia que inspira, mobiliza e norteia, é o propósito final de uma multiplicidade de esforços; a prevenção da violência é uma das estratégias que contribuirão para a sua concretização.
Profissionais e gestores de saúde, acadêmicos e autoridades governamentais vêm reconhecendo crescentemente que as violências precisam ser enfrentadas como um problema de Saúde Pública. Esse setor tem desempenhado papel cada vez mais ativo na definição de políticas públicas e programas direcionados a diversas modalidades de violência — tentando ultrapassar as tradicionais tarefas de assistência às vítimas e elaboração de análises epidemiológicas para adentrar, finalmente, nos campos da prevenção da violência e da educação em saúde focada na promoção da paz.
Isso não significa que uma questão tão complexa e multicausal como as violências possa ser responsabilidade ou domínio exclusivo do setor Saúde, mas sim que compete a este desempenhar um papel de articulação dos demais setores envolvidos com a problemática — tanto governamentais, quanto da sociedade civil organizada e da iniciativa privada — em uma atuação integrada e sinérgica.
É nesse momento histórico, de transição de papéis e formas de atuação, que se torna premente a necessidade de um novo discurso — intersetorial, transdisciplinar, em contínuo processo de elaboração e revisão — capaz de aglutinar novos e tradicionais atores sociais e mobilizar vontades políticas e compromissos coletivos em favor de um dos pré-requisitos mais importantes da saúde: a paz.
(MILANI, Feizi Masrour. Saúde: a busca por um discurso mobilizador. Radis. Nº128. maio de 2013)
Considere as frases seguintes e assinale com V as verdadeiras e com F, as falsas.
(__) A construção de uma cultura de paz exige a adoção primordialmente de políticas públicas assistencialistas.
(__) A paz se relaciona ao desenvolvimento, aos direitos do homem, à diversidade e à cooperação.
(__) A violência é sempre um dano que se causa ao outro através do uso da força física.
(__) As abordagens tradicionais do sistema de justiça criminal têm-se mostrado bastante eficazes no combate à violência.
(__) O enfrentamento da violência na sociedade brasileira pressupõe a construção de um diálogo entre os diversos setores da sociedade.
A sequência correta é:
Questão 54 98547
IMEPAC Medicina 2014/2A sociedade contemporânea, denominada pós-moderna por alguns pensadores, expressa diferentes rupturas que incluem, por vezes, mudanças de paradigmas econômicos, sociais e políticos.
Essas rupturas e mudanças NÃO contemplam
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