Questão 3 - UFRGS 1º dia 2025
Instrução: A questão está relacionada ao texto abaixo.
Aquele – 1926 – foi um ano significativo na
vida de Rodrigo Cambará. “O nosso amigo
voltou a ser o que era” – observou um dia o
velho José Lírio. “E o Sobrado está de novo
[5] como nos velhos tempos”. Tinha razão. Não
havia quem não considerasse um privilégio
entrar no casarão dos Cambarás, privar com
seus moradores, beber os vinhos de sua adega
e provar os quitutes de sua cozinha. Sempre
[10] que um forasteiro de certa importância
chegava a Santa Fé, a primeira pergunta que
se fazia sobre ele era: “Já foi ao Sobrado?”.
Rodrigo andava eufórico, cheio de belos
projetos. Seus artigos apareciam no Correio do
[15] Povo. Lia muitos livros, em geral de maneira
incompleta, mas apesar disso discutia-os com
os amigos, como se tivesse penetrado neles
profundamente. Apanhava no ar as coisas que
outros diziam e depois, com imaginação e
[20] audácia, dava-lhes novas roupagens e usava
as como suas na primeira oportunidade. Roque
Bandeira, que observava o amigo com olho
terno mas lúcido, costumava dizer em segredo
a Stein que Rodrigo possuía a melhor “cultura
[25] de oitiva” de que ele tinha notícia. De resto,
não seria esse um hábito bem brasileiro? O que
havia entre nossos escritores, artistas e
políticos – afirmava – não era propriamente
cultura, mas um tênue verniz de ilustração. O
[30] brasileiro jamais tinha coragem de dizer “não
sei”. Em caso de dúvida, respondia com um
“depende”, que não só o livrava da necessidade
de confessar a própria ignorância como
também lhe dava tempo para achar uma saída.
[35] Foi também naquele ano que Rodrigo se
sentiu tomado de desejo de realizar grandes
coisas. Um dia, da janela da água-furtada do
Sobrado, contemplou as ruas e telhados de
Santa Fé e murmurou para si mesmo: “Preciso
[40] ajudar minha terra e minha gente”. E uma voz
apagada dentro dele ciciou, maliciosa: “E a
mim mesmo”. Mas de que modo? Não se sentia
com disposição de entrar na Intendência, subir
ao gabinete de Zeca Prates e dizer: “Meu
[45] amigo, tenho umas ideias sobre o nosso
município e quero colaborar contigo”. Sua
intenção podia ser mal interpretada. E, de
resto, seria um gesto inútil. Depois de eleito, o
irmão de Terêncio caíra na rotina. Murmurava-
[50] se – e devia ser verdade – que era manobrado
pelo Laco Madruga, como um títere. As
finanças municipais viviam num estado crônico
de insolvência. Por esse lado, portanto, nada
se podia fazer.
[55] Às vezes Rodrigo perguntava-se a si
mesmo se o melhor não seria atirar mais longe
a lança da ambição, fazendo-a passar as
fronteiras do município e do Estado. Concluía
que a maneira mais eficaz de melhorar Santa
[60] Fé era melhorar o Brasil. Pensava então numa
deputação federal, mas não sabia por que
partido. Sentia-se no ar, sem ligações políticas.
Vinham-lhe então impaciências. A
revolução estava perdida. Washington Luís
[65] eleito e reconhecido. O país teria
provavelmente de aguentar mais quatro anos
de estado de sítio, com a imprensa
amordaçada, os presídios cheios de
prisioneiros políticos e o povo acovardado ou
[70] indiferente.
Adaptado de: VERISSIMO, E. O tempo e o vento: o arquipélago II. São Paulo: Globo, 1995.
Assinale a alternativa que apresenta somente palavras com dígrafos consonantais.
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