Questões de Português - Gramática - Linguagem - Variações linguísticas - Neologismo
42 Questões
Questão 4 15036557
UNIPAM 2025Leia o texto a seguir para responder à questão.
Me chamem de velha
A velhice sofreu uma cirurgia plástica na linguagem
Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”. Pensei: “roubaram a velhice”. As palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de um século. Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos.
Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.
A velhice é o que é. É o que é para cada um, mas é o que é para todos, também. Ser velho é estar perto da morte. E essa é uma experiência dura, duríssima até, mas também profunda. Negá-la é não só inútil como uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás, em um programa de TV, o entrevistador me perguntou sobre a morte. E eu disse que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha entendido, porque afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero viver a minha morte”.
[...]
Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. A vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor, envelhecer é perder valor. Os eufemismos são a expressão dessa desvalorização na linguagem.
[...]
Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está. Alguém vê um Boris Schnaiderman, uma Fernanda Montenegro e até um Fernando Henrique Cardoso como idosos? Ou um Clint Eastwood? Não. Eles são velhos.
Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se adolescente e morre-se adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são incômodos porque usam fraldas ou precisam de ajuda para andar. Velhos incomodam com suas ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar. Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que velhos desejam as recreacionistas. Idosos morrem de desistência, velhos morrem porque não desistiram de viver.
Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém leria um livro chamado “O idoso e o mar”? Não. Como idoso o pescador não lutaria com aquele peixe. Imagine então essa obra-prima de Guimarães Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao termo “idoso”: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam…”.
[...]
Envelhecer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes, fascinados pelas dimensões cada vez mais superlativas do que desconhecemos e queremos buscar. É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem.
Acho que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem nem a velhice nem a morte, não deixar que nos reduzam a palavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o que temos a dizer e a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda chegará. Pode parecer uma besteira, mas eu cometo minha pequena subversão jamais escrevendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto, claro, se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência.
Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento da minha força. Sei que estou envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e, para o futuro, espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem de encerrar minha travessia com a graça de um espanto.
(BRUM, Eliane. Me chamem de velha. Época, 20 fev. 2012. Disponível em: http://desacontecimentos.com/?p=1375).
De acordo com a autora, os eufemismos
Questão 64 14771353
UECE Específicas 2 Fase 1 Dia 2025/1Rede cearense é a mais avançada das tecnologias da humanidade
[1] No momento em que o Ministério da
Educação debate o possível veto do aparelho
celular nas escolas, vejo aqui uma imagem
comovente de São Gonçalo do Amarante, na
[5] Região Metropolitana de Fortaleza. Dá pra sentir
até a brisa do mar no rosto daquelas pequenas
criaturas.
Deitados em redes coloridas, com livros
nas mãos, os meninos e meninas da creche pública
[10] municipal viajam nas histórias e estórias oferecidas
na cidade cearense. Uma iniciativa tão simples,
mas que pode significar uma experiência marcante
na vida desses miúdos.
O balanço das “fiangas” embala a leitura e
[15] as brincadeiras da Creche Viva Criança, tema de
reportagem de Theyse Viana aqui no Diário do
Nordeste. É uma resposta digna e prática que bate
todas as tentações das telas e outras bugigangas
modernas.
[20] Na aldeia dos Anacés, a mais avançada
das tecnologias para a meninada é o projeto Redes
do Saber. A invenção indígena brasileira, citada
por Pero Vaz de Caminha desde a invasão
portuguesa de 1500, segue mais lúdica e
[25] necessária do que nunca.
O gênio potiguar Câmara Cascudo, autor
do clássico “Rede de Dormir – Uma pesquisa
Etnográfica” (Global Editora) aplaudiria de pé essa
ideia do litoral do Ceará. A civilização nordestina, é
[30] bom que se diga, foi praticamente inventada no
balanço da “mãe veia”, como os mais antigos
chamavam suas redinhas.
O livro de Cascudo nos conta toda essa
longa história, com passagens curiosas sobre o
[35] olhar estrangeiro. Repare as impressões de Jean
Nieuhof, holandês que morou no Nordeste entre
1640 a 1649: “Os brasileiros não possuem grande
variedade de utensílios domésticos e seu maior
cuidado é com a rede a que dão o nome de Ini”,
[40] descreveu. “Quando vão dormir, amarram a rede a
duas traves de sua tenda, ou em duas árvores, ao
ar livre, a certa altura do chão, para evitar os
animais daninhos e as exalações pestíferas da
terra”.
[45] Para dormir, para descansar, tirar uma
sesta ou para o prazer da leitura, como a meninada
de São Gonçalo do Amarante, estão para inventar
um utensílio mais incrível e mais evoluído no
planeta. Não existe, a rede cearense é imbatível.
[50] Foi numa fianga que me tornei leitor. Um
leitor improvável no sítio das Cobras, no município
de Santana do Cariri, já nas proximidades de
Aratama. Um redário faz milagres.
Imagina se o doutor Sigmund Freud
[55] tivesse tido a sorte de conhecer esse utensílio com
a marca estilosa do Nordeste. O divã teria sido
trocado na hora. Em uma boa rede de Jaguaruana,
a gente confessa as mais distantes lembranças
encobridoras do fundo da alma.
SÁ, Xico. Rede cearense é a mais avançada das tecnologias da humanidade. Diário do Nordeste. Fortaleza, 26 de out. 2024. Adaptado.
Para referir-se à rede de dormir como “fiangas” (linha 14) e “Ini” (linha 39), o autor está utilizando-se da
Questão 23 14440753
ENEM PPL 1° Dia (Amarelo) 2024Dois países, três cidades, uma só comunidade
Cidades separadas por fronteira seca reúnem paranaenses, catarinenses e argentinos em uma integração. Essa irmandade entre os municípios é perceptível não apenas pela relação geográfica. Nas ruas ou no comércio, é fácil encontrar quem trabalhe em uma cidade e viva na outra. É comum perceber um sotaque quase indefinido, misturando português e espanhol, resultado da convivência entre brasileiros e argentinos. Palavras como camiáu (caminhão) não são encontradas nem no espanhol nem no português vernáculos, apenas no portunhol. Tal situação, de contato linguístico, é muito comum nas fronteiras de países ou até mesmo dentro de um país em que duas línguas coexistem, em regiões próximas a países fronteiriços ou em comunidades bilíngues.
Disponível em: www.gazetadopovo.com.br. Acesso em: 12 dez. 2023 (adaptado).
De acordo com esse texto, a palavra “camiáu” é um exemplo de fenômeno que revela a
Questão 10 15030489
UNESPAR 2023Texto para a questão.
Palavras, expressões e tecnologias que odeio!
Por Mouzar Benedito – Revista Fórum
[1] De vez em quando pego raiva de algumas palavras ou expressões, que me ferem os
ouvidos ou a consciência. A moda dos gerúndios está passando (ói ele aí), ou "vai
estar passando", para ser mais de acordo com a fala desse pessoal do telemarketing
e de atendimentos telefônicos em geral.
[5] Um pessoal da área de treinamento de pessoal era especialista em criar certas
expressões muito bestas. Houve uma época em que não se podia dizer que "o fulano
falou‖ ... Usar o verbo falar nessas circunstâncias era chamar esse pessoal pra briga.
Tinha que ser "o fulano verbalizou". E tem muitas outras mais, mas fiquemos nas
coisas dos dias de hoje, umas entre as muitas que eu nem registrei, pois foram
[10] "canceladas" (ói outra modernidade aí) da minha memória.
E falando em vender, tenho uma ojeriza pela palavra atacarejo. O conceito até que
não é ruim: estabelecimentos que vendem por atacado e no varejo, teoricamente por
preços melhores. A palavra atacarejo me incomoda, acho feia, e comecei a pegar
raiva dela depois de ver que seguranças de uma loja dessas entregaram para serem
[15] assassinados sob tortura, em Salvador, dois homens que furtaram uns bifes. A loja,
como em todos os casos semelhantes, afirmou que não aprova isso etc. e tal, mas
uma adolescente de 15 anos já tinha sido torturada antes por seus seguranças, e
denunciada, por ter furtado alguma coisa.
Continuo falando de coisas relacionadas ao dinheiro... Esta ouço sempre se
[20] relacionando a "influenciadores digitais" ("influencers", como preferem os que
lamentam não serem gringos).
Mas o que eu queria falar dos "influenciadores" é que eles "monetizam" o que fazem,
quer dizer, transformam em dinheiro cada fala ou sugestão que apresentam. Vivem
disso, utilizam suas aparições e falas como fonte de rendimento, e admiro que pagam
[25] por isso. Ah... Mas de vez em quando alguém perde essa fonte de renda, e para isso
já existe o verbo "desmonetizar".
E tem uma coisa mais: na hora de monetizar (ou em outras circunstâncias) eles têm
que "precificar" as coisas. Precificar! Isso me lembra, não sei porquê, aquelas
pessoas que dizem que todo mundo tem um preço. Horrível.
[30] Agora um verbo dos tempos de Covid. Eu poderia dizer que peguei a maldita duas
vezes, mas digo que ela me pegou duas vezes. Mas ouço dizer é que o "fulano
positivou". Errado? Não sei. Mas acho feio.
Ia parar por aqui, mas me lembrei de um modismo que não tem nada a ver com o uso
da linguagem, palavras ou expressões que a gente pode achar feias ou
[35] desagradáveis. É acharem que todo mundo tem a obrigação de ter computadores e
celulares programados com tudo quanto é aplicativo.
Velho ranheta! Ultrapassado! Acho que não falam, mas pensam isso. E eu fico aqui
resmungando sobre isso tudo, contra certas modernidades da linguagem e, pior
ainda, da tecnologia que julgam ser de uso obrigatório.
Adaptado do original disponível em: https://revistaforum.com.br/opiniao/2022/8/2/palavras-expressestecnologias-que-odeio-por-mouzar-benedito-121085.html - Acesso em: 03 ago. 2022
Assinale a alternativa que contenha possíveis sinônimos para todos os termos destacados e numerados nas passagens abaixo, no contexto em que ocorrem no texto "Palavras, expressões e tecnologias que odeio!":
"(1) Um pessoal da área de treinamento (2) de pessoal era especialista em criar certas expressões muito bestas". (linhas 5-6)
"E tem muitas outras mais, mas fiquemos nas coisas (3) dos dias de hoje, umas entre as muitas que eu nem registrei, pois foram (4) "canceladas" (ói outra modernidade aí) da minha memória." (linhas 8-10)
Questão 9 14750161
UFMS PASSE - 2 Etapa 2022-2024Leia o trecho do conto “Famigerado”, da obra Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa, e responda à questão.
— Famigerado é inóxio, é “célebre”, “notório”,
“notável”...
— Vosmecê mal não veja em minha grossaria
no não entender. Mais me diga: é desaforado? É
caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de
ofensa?
— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São
expressões neutras, de outros usos...
— Pois... e o que é que é, em fala de pobre,
linguagem de em dia de semana?
— Famigerado? Bem. É: “importante”, que merece
louvor, respeito...
(ROSA, João Guimarães. Famigerado. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001)
Assinale a alternativa em que os termos apresentados substituem, respectivamente, os neologismos “caçoável” e “farsância”, sem alterar o sentido das frases no texto transcrito.
Questão 1 9169048
USCS Medicina 2022/2Examine o quadrinho de André Dahmer.

O neologismo “smartphonismo” contribui para o humor do quadrinho.
No contexto apresentado, o sufixo “–ismo” atribui a essa nova palavra efeito de sentido semelhante ao da palavra
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